Crônicas de biblioteca – I

Poderia ter mil vidas e ainda não encontraria tempo suficiente para ler todos os livros que espreito nas minhas visitas diárias à biblioteca. Privilegiada por ter uma biblioteca enorme a minha disposição, já tornou-se parte da rotina separar um tempinho no dia para a visita descomprometida. Sem empréstimos ou buscas específicas, é como encontrar um bom amigo e pedir um café. Gosto de passear pelas mesas, ver o que os outros andam a ler, observar a vida que circula entre páginas inumeráveis.
Depois de certo tempo, é como ser freguês de boteco. A gente vai conhecendo os frequentadores assíduos e seus costumes, só pelo método da observação silenciosa. Há aqueles que marcam presença todos os dias no mesmo horário e sentam para ler o jornal; há os que vão disputar partidas acirradas de xadrez. Há os que vão a conversa em dia com os amigos, e outros que parecem sempre tão compenetrados em suas leituras sérias.
Minha estante preferida é a que abriga os livros devolvidos recentemente. O que as pessoas estão escolhendo dentre todos que poderiam? Pequenos prazeres delicados que esse refúgio pode proporcionar. Não há trânsito, saldo da conta bancária, chuva torrencial ou discussão amorosa. Apenas os livros, centro das atenções, espiando seus leitores com curiosidade e carinho. Esperando que uma mão inquieta lhes tire das infinitas prateleiras. Alguns amarelos de ver o tempo passar por suas palavras, outros ainda com o cheiro da impressora.
A biblioteca é esse templo que registra o tempo, mas não se move na sua velocidade. É solene e transgressora. Nela reside o encontro da autoridade e da subversão. Silêncio no ambiente, barulho nas ideias. Embora essa minha biblioteca respire não tão silenciosamente. Sei que enquanto estiver ali me sentirei segura do mundo que corre freneticamente desprezando a sabedoria dos livros. Entretanto, também sei que estarei vulnerável às palavras de toda ordem, que podem arrancar suspiros, injúrias, noites mal dormidas, melancolia e perguntas.
E é essa minha escolha, minha escola. Onde encontro meus mestres. Onde decifro o código desse cofre: o conhecimento adquirido pela pesquisa paciente, pelo encontro com os livros, pelo toque, pelo amor. É onde eu faço minha prece diária a algum deus que habita a linguagem. É onde eu pratico a minha revolução.

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