Deste mundo e de outro: crônicas de José Saramago

deste mundo e do outroJosé Saramago (1922-2010) é certamente o escritor português mais importante do século XX. No exercício de sua vida literária, buscou sempre cultivar paralela à figura de escritor uma faceta de intelectual engajado. A construção de sua identidade pública pode se dividir nesses dois movimentos que dialogam sem, no entanto, se confundirem: há de um lado o Saramago escritor, ficcionista brilhante e do outro o Saramago cidadão e militante, assumidamente comunista, ateu, defensor dos direitos humanos, entre outras causas. Tal engajamento encontrou possibilidades de ser expresso, sobretudo, após a sua consagração como romancista, que culminou com a premiação do Prêmio Nobel em 1998.

No entanto, embora Saramago tenha ficado mundialmente conhecido pelos seus romances, que surgem a partir da década de 1980 – quando decide dedicar-se exclusivamente à literatura – no final da década de 60, mais precisamente no período de 1969 a 1974, Saramago colaborou como cronista nos jornais A Capital e Jornal do Fundão, dos quais viria a reunir e publicar as coletâneas de crônicas Deste mundo e de outro (1971) e A bagagem do viajante (1973).

 Nesses escritos, é possível reconhecer traços que apontavam o universo das inquietações que permeariam a sua obra com o passar dos anos. Se no tratamento ficcional de seus romances as questões ideológicas que acompanharam sua vida passam pelo crivo da literatura ácida, mas sem proposta panfletária, nas suas crônicas é possível identificar mesclas de literatura e engajamento, fomentadas pela liberdade criativa que o próprio gênero oferece.

A crônica parte do pressuposto de ser uma escrita híbrida, que desconstrói discursos literários e jornalísticos, para reconstruir uma escrita do cotidiano sob o signo da percepção sensível dos fatos. No entanto, o cotidiano que a crônica reclama não é somente a do presente material. O tempo é a força geradora dessa escrita nas suas nuances de passado, presente e futuro, não obstante, sempre captadas por um sentimento atual. Nesse sentido, as crônicas de Saramago, podem se travestir de memória, conto, prosa poética, ensaio político, cartas e o que mais couber nessa área fronteiriça, nesse entre-lugar da literatura e do jornalismo.

Deste mundo e de outro (1971) é uma coletânea composta por 61 crônicas, publicadas no jornal A Capital entre 1968 e 1969. No conjunto desses textos, o cotidiano é, na maioria das vezes, transfigurado como um processo de experiência em que o homem toma conhecimento de si, do outro e do mundo. Entretanto, o sentido da experiência não é retirado dos valores de uma elite cultural, em que essa seria produto de uma vasta vivência, pressupondo conhecimentos ampliados do mundo político, econômico, filosófico, etc. As vivências narradas procuram apreender aspectos de uma sabedoria ou filosofia muito fundada pela observação do mundo peculiar a cada um dos sujeitos que as compõem. A convivência com a solidão, a relação com a morte, a imaginação como alargamento das fronteiras, a limitação do mundo pelas palavras, são algumas das experiências vivificadas por essas crônicas, em que a lição da dúvida advém da simplicidade.

 Na primeira crônica, A cidade, Saramago constrói uma metáfora sobre a inevitável batalha que o homem necessita travar consigo mesmo na busca de habitar-se, de não estar exilado da cidade que ele mesmo representa. Com a forma próxima à de uma narrativa épica, em que deuses lutam contra ou a favor dos homens, a metáfora se resolve apenas no último parágrafo: “Era uma vez um homem que vivia fora dos muros da cidade. E a cidade era ele próprio”. A sentença final desconstrói o sentido épico e grandioso do texto para tornar a história narrada apenas uma representação da batalha cotidiana de todo o homem consigo mesmo.

Já em outras crônicas, o saber desperta da visão de mundo de personagens não metafóricos, mas que provavelmente fizeram parte da infância do próprio escritor, na aldeia de Azinhaga. É o caso da crônica O sapateiro prodigioso. A figura do sapateiro é construída analogamente a ideia de prosa que Saramago deseja para sua crônica: “Hoje queria uma prosa descansada, tranquila, que dissesse as coisas mais sérias da forma mais simples.”. Essa vontade se materializa na pergunta do sapateiro, quando interroga ao rapaz Saramago, seu interlocutor: “O amigo acredita na pluralidade dos mundos?”.

Outro nível de experiência caro a Saramago é aquela que pode brotar da percepção infantil e inaugural de uma criança, como na crônica Um natal há cem anos, que estabelece um paradoxo entre o universo dos adultos, cercado de preocupações da vida prática, e o da criança, que está vivendo intensamente o movimento de descobrir ao mundo de fora e de dentro, muitas vezes habitado pela solidão.

Enfim, seria um trabalho pretensioso descrever o sentido de suas crônicas, e roubaria o prazer que a sua leitura calma e delicada pode significar para cada um. Fica então essa resenha, meio convite, meio relato de leitura, a fim de que alguém possa se interessar por esse Saramago não tão pop, mas cheio de inutilidades para ensinar.

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