Ana Cristina Cesar: a mulher antropofágica

ATRÁS DOS OLHOS DAS MENINAS SÉRIAS
Aviso que vou virando um avião. Cigana do horário
nobre do adultério. Separatista protestante.
Melindrosa basca com fissura da verdade. Me
entenda faz favor: minha franqueza era meu fraco, o
primeiro side-car anfíbio nos classificados de
aluguel. No flanco do motor vinha um anjo
encouraçado, Charlie’s Angel rumando a toda para
o Lagos, Seven Year Itch, mato sem cachorro. Pulo
para fora (mas meu salto engancha no pedaço de
pedal?), não me afogo mais, não abano o rabo nem
rebolo sem gás de decolagem. Não olho para trás.
Aviso e profetizo com minha bola de cristais que vê
novela de verdade e meu manto azul dourado mais
pesado do que o ar. Não olho para trás e sai da
frente que essa é uma rasante: garras afiadas, e
pernalta.

(Ana Cristina César)

Esse texto nasce de uma série de reflexões, das mais passionais às mediadas pelo olhar teórico e crítico, sobre a obra poética de Ana Cristina César. Por um tempo não conseguia ler os seus poemas desassociados do que havia de feminino na sua escrita, pois toda a subjetividade de seus poemas me remetia ao universo da mulher. De fato, a primeira questão que formulei era sobre a condição da mulher enquanto escritora, qual o seu reconhecimento em uma sociedade essencialmente monopolizada pelo pensamento masculino? Bastou pensar enquanto graduanda de um curso de Letras, e notar que no percurso de estudos sobre literatura brasileira e estrangeira, em raros momentos ouvi falar de poetisas ou escritoras em geral, com a feliz exceção de uma disciplina optativa, que traçava um panorama da poesia feminina contemporânea em Portugal.

Contudo, foi no encontro com a obra crítica de Ana Cristina que comecei a encontrar possibilidades de fuga do lugar-comum da crítica, cuja leitura da literatura produzida por mulheres tende sempre a passar pelo filtro da análise cultural, em uma reivindicação feminista, da qual os valores estéticos ficam à mercê dos valores sociais e culturais. Ela mesma enquanto mulher trazia à tona questionamentos a respeito das escritoas que produziram e estavam produzindo no Brasil. Por que a escrita de mulheres carregava tantas marcas semânticas do universo feminino? Por que as mulheres se resignavam a falar de temas que estavam diretamente ligados a uma imagem romântica da mulher? E por que mesmo o rompimento dessa tradição, empreendido, sobretudo, por portas marginais na década de 70, não libertou a palavra da mulher dessa condição de subordinação ao gênero?

Todas essas perguntas são muito difíceis de responder sem cair na teia de explicações superficiais. Mas penso na angústia que é ser mulher e querer habitar esse território poético que sempre foi monopólio dos homens. Logo, ser mulher e escrever literatura é colocar-se em conflito: o conflito entre a palavra e o gênero. A palavra que dá voz a um eu transbordante em subjetividade, o gênero que se quer afirmar na quebra de preconceitos machistas que reverberam por todos os lados. Nesse sentido, volto a Ana Cristina, e pergunto como ela soluciona, ou experimenta esse conflito na sua atitude poética?

Li muitas vezes os poemas e não conseguia esboçar uma resposta. Percebi que pela via da interpretação eu não conseguia me esquivar do que todos já haviam falado de sua poética. Tom confessional, intimista, escrita que tem sempre em vista um outro em diálogo, cartas. Todas essas características muito femininas. Entretanto, isso era o que estava posto na superfície da poesia e podia enganar. A astúcia de sua escrita consistia, justamente, nessa imitação da vida íntima e, portanto, era preciso olhar os signos mais atentamente.

A teus pés

A teus pés

Então numa manhã dessas, sentada numa aula cheia de tédio, corri mais uma vez as páginas de A teus pés. Era uma última tentativa de ler esses poemas e encontrar neles algo mais do que palavras de mulher. Tomei o lápis e decidi que iria grifar as palavras e imagens mais recorrentes, a fim de delinear o campo lexical de sua poesia. Dessa tarefa três aspectos se mostraram inseridos no texto, como procedimento e como temática: a vertente biográfica/autobiográfica, os procedimentos análogos ao cinema, a presença da velocidade nos termos modernistas, o uso de palavras em inglês e francês. Os poemas tinhas palavras como biografia, autobiografia, confesso, subjetividade, segredo,primeiro ato, cena,personagem,flash,táxi, contramão, contrafluxo aparecendo recorrentemente e evidenciando a sua filosofia de composição. Tom de fala biográfico, versos funcionando como montagens, com cortes abruptos, sugerindo cenas, e um ritmo frenético, bastante jazzístico.

Todas essas constatações me remeteram imediatamente a Oswald de Andrade. Conseguia pensar em Memórias sentimentais de João Miramar. A poética de Ana Cristina dialogava claramente com a proposta de Oswald. Não obstante, trazia um elemento novo, transgressor, que era a palavra antropofágica de mulher. Ana segue a cartilha antropofágica incorporando a ela elementos de uma identidade não mais nacional, e sim, feminina. Considerando o contexto de sua produção, sua proposta faz muito mais sentido, se pensarmos que Ana integrou um movimento poético marginal da década de 70, fortemente influenciado pela contracultura, por reivindicações das liberdades individuais, das lutas de minoria, e dissolução da ideia de pátria como lugar ideal, haja vista que o Brasil estava sob o espectro da ditadura.

Enfim, espero que agora tendo encontrado essa nova perspectiva de leitura para seus poemas, a minha obsessão por essa poeta descanse um pouco. Não bastassem a sua perturbadora poesia, as pesquisas sobre sua vida me levaram a um labirinto de interrogações que nunca terão resposta suficiente. Por que se suicidou aos 31 anos? Essas e outras perguntas eu vou tentando traduzir em ensaios, pesquisas, poemas, e assim delineando um sentido a minha prática de mulher em busca da palavra.

Ana Cristina César

Ana Cristina César

CONVERSA DE SENHORAS
Não preciso nem casar
Tiro dele tudo o que preciso
Não saio mais daqui
Duvido muito
Esse assunto de mulher já terminou
O gato comeu e regalou-se
Ele dança que nem um realejo
Escritor não existe mais
Mas também não precisa virar deus
Tem alguém na casa
Você acha que ele agüenta?
Sr. ternura está batendo
Eu não estava nem aí
Conchavando: eu faço a tréplica
Armadilha: louca pra saber
Ela é esquisita
Também você mente demais
Ele está me patrulhando
Para quem você vendeu seu tempo?
Não sei dizer: fiquei com o gauche
Não tem a menor lógica
Mas e o trampo?
Ele está bonzinho
Acho que é mentira
Não começa

SUMÁRIO
Polly Kellog e o motorista Osmar.
Dramas rápidos mas intensos.
Fotogramas do meu coração conceitual.
De tomara-que-cáia azul-marinho.
Engulo desaforos mas com sinceridade.
Sonsa com bom-senso.
Antena da praça.
Artista da poupança.
Absolutely blind.
Tesãy do talvez.
Salta-pocinhas.
Água na boca.
Anjo que registra.

CÉSAR, Ana Cristina. A teus pés.

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6 comentários sobre “Ana Cristina Cesar: a mulher antropofágica

  1. Obrigada pelos comentários. Realmente, A Teus Pés é um livro incrível, de muita intensidade poética e de uma voz singular. O livro Crítica e Tradução também tem ótimos textos que ajudam a ter uma outra percepção também de sua obra! :)

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