Só para fumantes – me empresta o isqueiro?

Só para fumantes, Júlio Ramón RibeyroDos pensamentos que se perdem na fumaça dos cigarros às palavras que se escrevem transbordando os cinzeiros: Só para fumantes*, do peruano Júlio Ramón Ribeyro, é um convite à leitura cinzenta e solitária. Um livro (ou seria, maço?) de contos que desafia o otimismo saudável e penetra nos escombros de vidas e coisas fracassadas. Em tempo, não que eu pense que os fumantes sejam todos pessimistas e infelizes. Não obstante, reconheço que há nesse pequeno ato diário de autodestruição algo de aceitação da realidade inevitável: o perecimento.

Sempre gostei de ver como por trás dos olhares longínquos dos fumantes havia uma noção real de desencantamento do mundo, e penso que era justamente esse desencanto que eu queria encontrar nas páginas do livro que eu recém abria e através das quais eu pude entrever personagens de uma narrativa dura, contados pela percepção que só a experiência de muitos cigarros solitários poderia justificar.

Provo minha tese com as palavras do próprio escritor, que logo no início do primeiro conto, escreve: “minha história se confunde com a história de meus cigarros”. Provavelmente, as histórias que ele conta também, e não apenas se confundem, mas se fundam nos seus cigarros, afinal, o escritor dedica 42 páginas para convencer o leitor de que os atos de escrever e fumar estão intimamente ligados.

Tese argumentada, os contos que seguem são histórias onde se abrigam fugitivos da realidade, por sua vez cruel para com os sujeitos que não se encontram nela inseridos. Esses personagens são crianças no lixo, homens infelizes em seus trabalhos, gente à beira do mar sem ter para onde escapar, enfim, pessoas que só tem possibilidade de vida no território do devaneio. Vidas empurradas para a margem da sociedade e de si mesmas, e que só vislumbram fagulhas de felicidade nas suas pequenas utopias.

 Seja o sonho viver nas ruas, como os meninos de Urubus sem penas, seja ter o negócio próprio, como o bêbado de Explicações a um cabo de polícia, ou ainda exercer uma profissão, como o personagem de O professor substituto. No geral, seus personagens são homens simples que se encantam com as possibilidades do devir, para logo após desencantarem-se diante da brutalidade com que suas vidas são colocadas para fora do sistema. Realidade essa que enlouquece o poeta de O embarcadouro da esquina e o viúvo de Os jacarandás, que humilha o funcionário público de Espumante no porão, que desconsola o velho solitário de Ao pé da escarpa.

Exilados da cidade, que cresce e esmaga sem pedir licença para os projetos de ninguém, essas histórias são, sobretudo, contos de frustração e ingenuidade, de indivíduos que pensam, por alguns instantes, poderem mudar o destino que lhes aguarda, mas não podem.

A vida é feita de momentos. Foto de Eder Capobianco

*Livro de contos de Júlio Ramón Ribeyro, (Lima, 1929 – 94). É o primeiro livro do escritor peruano publicado no Brasil, pela editora Cosac Naify, em 2007.

** A imagem é do fotógrafo Eder Capobianco e pode ser visualizada no flickr http://www.flickr.com/photos/antimidia/8880046642/

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5 comentários sobre “Só para fumantes – me empresta o isqueiro?

    • Obrigada pela leitura e pelo comentário. Eu conheci a obra recentemente e foi uma grata surpresa. Os contistas da América Latina são uma preciosidade, que em nada devem para os grandes do cânone. Infelizmente, sua obra é pouco disseminada no Brasil. Por exemplo o Júlio Ramón Ribeyro, que por enquanto só tem esse livro publicado por aqui.

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