três livros e um pequeno caos

“olhar profundamente o caos de sua alma”.

(Herman Hesse)

Há livros que foram escritos para virar um leitor de ponta cabeça. Livro em mãos, torna-se urgente uma quebra na rotina: fechar-me por um tempo, estar reclusa e em introspecção, para assim abandonar-me em companhia apenas da leitura, por horas a fio. Caneta e caderneta próximas, tomo nota dos parágrafos mais significativos, respondendo com interjeições e caretas. Sento e deito em todas as posições possíveis. Caminho com o livro pela casa em todos os cômodos. Esqueço a hora do almoço e fico insone, consumida por uma ideia.

Hoje, foi o dia (ou a noite) que me reencontrei com O lobo da estepe (Hermann Hesse), nas páginas de uma agenda anacrônica, e os poucos fragmentos anotados me fizeram reler, por uns instantes, a história da minha vida com aquele livro nas mãos. Provavelmente uma das experiências mais intensas que eu tive nos últimos anos. Livro de pôr a alma do lado avesso, O lobo da estepe fez reviver certa impetuosidade, despertando um instinto libertário, antes adormecido.

Recentemente, passei por outras duas experiências como essa, quando me encontrei, de forma despretensa e distraída, com A insustentável leveza do ser (Milan Kundera), que me colocou a beira de um precipício emocional e depois me salvou, e A náusea (Sartre), que promoveu o reencontro com uma solidão há tempos escondida.

Coincidentemente, ou não, eu colocaria os três livros citados na prateleira de romances filosóficos ensaístas, daqueles que “adentram a alma das coisas”, para parafrasear Milan Kundera e por isso, são capazes de espelhar a interioridade do leitor dentro de si. Cada um no seu tom, e resguardadas as suas particularidades, esses livros foram disparadores de muitas reflexões e mudanças de hábitos, ainda que pequenos e quase invisíveis, além de uma dolorosa vivência de leitura em que me vi esmiuçada ao ler minhas fraquezas tão expostas.

Enfim, que seja o tempo, inevitável, a melhor peneira, e esse dirá certeiro quais os livros realmente nos tocaram mais fundo e como eles transformaram o nosso cotidiano. Foi preciso me devorar nessas páginas que só multiplicavam as angústias, para dias depois, em estado de total abstração, já com os livros fechados e empoeirando, encontrar um espaço interior que acomodasse suas reverberações tão sensíveis. Penso, talvez seja a hora de uma releitura, acordar os demônios para me fazer companhia nesse inverno que se esboça. Contudo, sei que a viagem é perigosa e não promete o direito ao retorno, tempestades irão chegar.

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