Ensaio aberto: por trás da cortina de Milan Kundera

 

A cortina, Milan Kundera

Nunca pensei que poderia encontrar tanta beleza em um livro sobre a arte do romance, como aconteceu ao me deparar com A cortina, do romancista e ensaísta tcheco Milan Kundera.  Na forma do ensaio, a sua filosofia de escrita, que eu começara conhecer em A insustentável leveza do ser, se realiza clara e profunda, guiando o leitor a descobrir-se nos caminhos do romance. Digo “descobrir-se” pensando, sobretudo, nos leitores acostumados a críticos e teóricos brasileiros, cujos textos convergem, quase sempre, para uma abordagem analítica da literatura, que privilegia os aspectos históricos e sociais, em detrimento dos estéticos e existencialistas.

Os textos de A cortina ao serem concebidos como ensaios, transitam com habilidade por diversos discursos, fazendo uma leitura do romance que considera suas relações com o tempo, a história, a cultura, a estética, os mecanismos sociais, etc. Na medida em que Milan Kundera discorre sobre Cervantes, Flaubert, Kafka, Dostoievski, Rabelais, Tolstói, García Márquez, Grombowicz, Proust, e outros romancistas, ele demonstra uma aguçada percepção capaz de apreender desses autores os aspectos mais essenciais e fundamentais à prática romanesca. A escolha do seu repertório é muito significativa, uma vez que não se atém apenas às obras canônicas, colocando, dessa forma, os critérios de valor desse cânone em questão.

Suas reflexões mostram que o reconhecimento de uma obra literária está muito vinculado ao valor cultural da língua em que é produzida, ou da sua nacionalidade, e de como a cultura em que se insere está colocada no cenário mundial. Nesse sentido, os escritores do leste europeu, por exemplo, muitas vezes ficaram à margem de seus vizinhos alemães ou russos, por serem estes mais privilegiados enquanto produtores de cultura. O mesmo acontece com escritores da América Latina, que não conseguiram produzir romancistas tão importantes quanto um Flaubert ou um Dostoievski, carregando o estigma de serem filhos de culturas colonizadas.

A questão da nacionalidade em oposição à universalidade é um tema muito recorrente no cenário literário contemporâneo, e aparece nos ensaios do segundo capítulo de A cortina, intitulado Weltliteratur, onde se apropriando do conceito cunhado por Goethe para designar a necessidade de pensar a literatura em um âmbito mundial, Milan Kundera coloca a importância de romper as barreiras do provincianismo que limitam o intercâmbio de ideias entre países.

Outro ponto bastante interessante de suas reflexões acerca do romance perpassa a questão da consciência histórica e da influência, de como os romances se relacionam entre si, levando em conta seus antecessores. No entanto, essa abordagem histórica não se confunde com uma concepção engessada e linear, muito menos progressista, segundo a qual o gênero do romance estaria aperfeiçoando-se, tendo em vista modelos pré-estabelecidos. Para Milan Kundera, o romance é por natureza uma arte de conhecimento, uma especulação sobre a natureza da vida e das coisas e, por isso, não se aperfeiçoaria com vistas a tornar-se um gênero acabado. Não obstante, está em constante processo de mudança, ao passo que sua matéria reflete os conflitos históricos e sociais do homem e suas relações com o mundo.

                Por fim, gostaria de ressaltar um dos aspectos que mais me cativou nos seus ensaios, que é a sensibilidade com que atravessa essas obras e seus escritores, capaz de perceber como no romance a vulgaridade e a beleza se encontram, fazendo ver com profundidade o que antes parecia ser prosaico. Parafraseando o próprio Milan Kundera que intitula um capítulo por “Adentrar a alma das coisas”, ao falar sobre a natureza do romance, eu poderia intitular essa resenha por “Adentrar a alma dos livros”, pois é isso que fica ao final dessa leitura tão rica e bonita. Penso que faltam mais espíritos reflexivos como o dele, que possam presentear-nos com ideias autênticas e desprovidas de pedantismo ou academicismo. A cortina é um livro de aproximação, que conduz o leitor aos camarins do romance, deixando entrever o que há além da ideia de mera representação. 

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2 comentários sobre “Ensaio aberto: por trás da cortina de Milan Kundera

  1. Cheguei a esse livro por indicação de um outro. Na pesquisa sobre o livro encontrei sua resenha, aqui, guardada entre outros textos. Parabéns pelo texto, muito bom o blog.

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