Narrar as cidades: Budapeste e Medianeras: Buenos Aires na era do amor virtual

As cidades empurram cada vez mais os homens para dentro de suas paredes, crescendo esmagadoras, na mesma proporção em que se proliferam as neuroses da vida urbana. O mundo é grande. O quarto é pequeno. Contudo, é possível conhecer o longe sem precisar sequer abrir as janelas ao acordar. Relacionamo-nos com o mundo e com os outros por meio de fios invisíveis que nos conectam. Os livros já não amarelam, o cd não risca, o cinema é a cama e o encontro é um chat. Esses fios que nos separam da materialidade da vida, trazem o futuro ao nosso alcance, modifica nossa noção de tempo e espaço. Por fim, cada dia mais fechados na rede infinita, habitando as cidades virtuais que construímos em horas de navegação, nos esquecemos dos afetos que nos ligam em apertos de mão e abraços sensíveis.

O protagonismo da cidade sobre o homem não é mais um segredo, e as obras de arte estão aí para traduzir em linguagem essa nova forma de estar no mundo do homem pós-moderno. Se no surto de industrialização e urbanização do século XX as cidades aos poucos tomaram o lugar do campo enquanto topos da linguagem artística, a pós-modernidade anuncia a cidade soberana sobre o indivíduo, determinando sua vida em todos os aspectos possíveis, e transformando a sua expressão artística em uma tentativa de ressignificar a subjetividade fragmentada e caótica do sujeito, que se assemelha e confunde com os prédios, ruas e sinais.

Toda essa alteração na experiência urbana requer da criação artística novas formas que sejam capazes de narrar a vivência das cidades em confronto com o indivíduo. Seja por coincidência ou constatação, em um intervalo de quinze dias me deparei com duas obras, por sinal muito bonitas, que desencadearam essas reflexões. O romance Budapeste, publicado por Chico Buarque em 2003, e o filme Medianeras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual (2011), do argentino Gustavo Taretto.  Resguardadas as diferenças temáticas e de linguagem, é possível aproximar essas duas “leituras”, uma vez que elas têm no centro de suas propostas uma questão muito peculiar aos tempos atuais: a difícil tarefa do sujeito em narrar sua experiência solitária e anônima dentro da cidade. Como não costumo falar sobre cinema, vou me arriscar em uma “leitura comparada”, aproximando as questões narrativas, sem me ater muito à trama das obras ou às técnicas.

Quero falar, sobretudo, da sensação de desconhecimento do outro e da impossibilidade de comunicar-se, que faz com que sejamos multidões solitárias se esbarrando pela cidade.Talvez, por isso, ambas as obras sejam apresentadas com narrativas em primeira pessoa. O sujeito que não é visto no meio do todo, que perdeu a sua identidade na banalização da diferença que afeta, principalmente, os grandes centros, encontra na linguagem a única possibilidade de expressar os seus conflitos, de recuperar a sua voz pessoal, de se diferenciar. O enredo, muitas vezes, é menos importante do que o próprio ato narrativo, pois no contato do sujeito com a linguagem o mundo pode ser reconstruído segundo a sua perspectiva.

 No romance Budapeste, o narrador é o personagem José Costa, um ghost writer, alguém que tem no anonimato a maior premissa de sua vida. A metalinguagem está presente o tempo todo no seu discurso, recortado entre tempos e lugares diferentes, através do qual José Costa conduz o leitor do Rio de Janeiro a Budapeste, e vice-versa, as duas cidades pelas quais sua vida e o seu amor se dividem. Esse corte entre as esferas da vida também está posto no texto, ao utilizar recursos como o discurso indireto livre e a não linearidade, indicando a confusa relação de José Costa com o tempo e o espaço. Além disso, a metalinguagem se debruça sobre a constatação da banalização do escritor e da obra literária, da arte como mercadoria, um sintoma próprio da globalização e das mudanças culturais que ela implica.

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Budapeste, Chico Buarque

 Em Budapeste, embora as cidades sirvam também de paisagem para o romance, elas são disparadoras de conflitos existenciais. Esse homem, que tinha por costume conhecer as cidades estrangeiras por onde passava através das linhas e ícones de um mapa, sem que se interesse tampouco a sair do quarto do hotel, e que via a sua esposa mais nas telas da televisão do que na vida real, conhece uma mulher em Budapeste e a partir daí se vê no dilema entre uma cidade colorida e uma cinza, entre duas mulheres diferentes, a esposa e uma estrangeira, está dividido entre o familiar e o estranho, entre o prazer da língua em que escreve e o mistério do húngaro que desconhece.

Utilizando-se de outros recursos narrativos, o filme Medianeras, é construído sobre uma melancólica metáfora que compara os homens aos edifícios da cidade, narrada por duas vozes que se alternam, a de Martin e Mariana, os protagonistas da história. Eles são vizinhos de prédio que sequer se conhecem, e são mostrados sempre entre paredes, ligados ao computador ou a alguma atividade solitária. O filme traça um paralelismo entre as trajetórias de ambos, que embora tão próximas física e subjetivamente, são marcadas pelo desencontro. A forma narrativa combina imagens da cidade, de sua arquitetura, às reflexões de ambos, que no decorrer de algumas cenas falam sobre suas expectativas, solidões e paranoias alimentadas pela vida urbana, constituindo assim a metáfora sobre a qual se baseia o filme. A prosa poética dos narradores transforma a comparação de modo muito sensível.

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Cena do filme, Medianeras

Todas essas vozes, José Costa, Martín, Mariana, tentam responder como podem ao desafio de narrar a existência contemporânea. Os fatos que importam são pequenos e prosaicos, e é da particularidade e intimidade, do universo micro da existência de um indivíduo anônimo, que se busca a compreensão de um fenômeno muito maior que os próprios homens: o da dissolução das identidades e do afastamento das pessoas. Enquanto em Budapeste, José Costa e Kriska, sua amante, são aproximados pela diferença e pelo estranhamento, Martín e Mariana estão ligados pela afinidade com que partilham o medo do convívio social. No mais, são apenas vidas aleatórias que em nada tem algo de especial para contar, mas que rompem a barreira de suas neuroses e transmutam em linguagem o conflito da solidão acompanhada, nas cidades que arrastam os homens para a margem do texto, tal como os empurra para dentro de seus cubículos.

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