Mia Couto: histórias que vem do lado de lá

A língua é um território flutuante sobre o qual assentamos as nossas histórias e através do qual podemos caminhar pelos entre-lugares da identidade e da alteridade. Na grande placa tectônica imaginária da língua portuguesa, muitas vezes desconhecemos os outros com os quais partilhamos uma história e uma raiz, de modo que sua linguagem nos chega estrangeira, assim como os homens que nela habitam. As diferenças históricas e culturais entre brasileiros, portugueses e africanos, longe de se resolverem na língua, nela se evidenciam e reivindicam, fazendo com que nos encontremos e tomemos também conhecimento desses outros, que se mostram em palavras e sotaques, em sintaxes e poéticas, em narrativas e entrelinhas.

De fato, resguardadas as diferenças que dão vida própria a cada manifestação da língua portuguesa nos diversos espaços físicos onde ela se materializa, há um esforço político e cultural crescente para aproximação do que se chamaria de comunidade lusófona, ou seja, dos países falantes da língua portuguesa. Na área dos estudos culturais, há publicações muito interessantes buscando estabelecer uma relação entre as literaturas de língua portuguesa,  no sentido de ultrapassar a fronteira da análise comparada, não obstante, buscando compreendê-las como um macrossistema literário que possibilita e cria novas formas de resistências aos esquemas e ideologias hegemônicos, a fim de quebrar o pacto da colonização cultural. A obra Literatura, História e Política de Benjamin Abdala Júnior é uma boa indicação para aprofundamento dessa reflexão.

Nesse novo cenário que se configura, de trocas e relações culturais, as literaturas africanas passam a ter maior visibilidade ao lado da literatura portuguesa e da brasileira, sendo recebida com um misto de estranhamento e identificação, que sentimos ao entrar em contato com os falantes maternos de outras comunidades. Desse novo contato destaca-se a recepção do moçambicano Mia Couto entre os leitores brasileiros. Sendo reconhecido atualmente como um dos mais importantes escritores africanos de língua portuguesa, tanto pelas suas publicações literárias, que abrangem contos, romances e poesia, quanto pela sua importante participação como pensador das questões culturais que envolvem os países recém-independentes da África, a sua obra tem sido amplamente publicada e divulgada no Brasil, ganhando espaço também nas discussões acadêmicas sobre literatura contemporânea, identidade, comunidade lusófona, etc.

Na geografia da literatura de língua portuguesa, a linguagem literária de Mia Couto surge como um possível local de confluência entre o estrangeirismo e a empatia, uma vez que o leitor vivencia, através de uma narrativa fortemente imaginativa e poética, experiências de deslocamento que possibilitam a desterritorialização do seu imaginário para áreas fronteiriças, híbridas e instáveis. Para falar um pouco mais dessas questões, tomarei por base a leitura dos romances Terra Sonâmbula (2007), Venenos de Deus, remédios do Diabo (2008) e Antes de nascer o mundo (2009). Ambas as obras transitam, em vários níveis, através das invisíveis e tênues linhas que dividem imaginação e memória, estrangeirismo e identidade, realidade e devaneio. Essas linhas são cruzadas na constituição dos personagens principais dos romances, das suas paisagens e do próprio léxico com que a história é contada.

 No caso de Terra Sonâmbula (2007), o personagem principal é um menino que após ter perdido a família durante a guerra civil e, consequentemente, sua história de vida e identidade, se vê vagando pela estrada em meio à desolação do espaço, ao lado do velho Tuahir, um senhor que ele não sabe como conheceu, mas que se mostra como seu cuidador e responsável. Ao deparar-se com a carcaça de um ônibus queimado na estrada, Muidinga encontra folhas perdidas de um diário, chamado Caderno de Kindzu. A partir dessa descoberta, a narrativa de Muidinga e Kindzu passa a ser contada paralelamente, sendo que em muitos momentos suas histórias se imbricam, fazendo com que ambas as identidades se confundam.

A paisagem do romance é marcada por espaços de transitoriedade e movimento, seja na estrada de Muidinga, ou nas viagens de Kindzu em busca de sua origem. O que separa as duas narrativas em um primeiro momento é o caráter histórico da primeira e o mitológico da segunda, no entanto, a imaginação e o devaneio surgem como desestabilizadores dessa ordem, levando a história de Muidinga para um plano onírico que não corresponde à realidade do mundo material. Quanto a essa transição de narrativas e planos, é importante ressaltar que a introdução do entre-lugar se dá por meio do contato de Muidinga com a linguagem, no momento que encontra os cadernos de Kindzu. A língua, ainda que o pequeno não a conheça e não a domine, é o disparador da inventividade e da possibilidade de encontro com a verdadeira identidade de Muidinga.

Já no romance de 2008, Venenos de Deus, remédios do Diabo, o estranhamento é construído principalmente pela introdução de um léxico muito poético e cheio de neologismos.  Ambientada em Vila Cacimba, um território bastante enigmático e com histórias nebulosas. Nas palavras do personagem principal, Bartolomeu Sozinho, um velho mecânico aposentado, constitui-se uma teia de mentiras e verdades, tecida com memórias e falsidades. O leitor se vê tateando um espaço tão etéreo quanto envolvente, preso pelas artimanhas da oralidade poética de Bartolomeu Sozinho. A sensação de estrangeirismo que afeta o leitor reafirmada na presença do médico português Sidónio Rosa em Vila Cacimba, pois ao introduzir um personagem estrangeiro que tenta decodificar essa linguagem quase mística, Mia Couto introduz um elemento de contraponto e dúvida às histórias narradas.

Por fim, no romance Antes de nascer o mundo o conflito principal entre memória e realidade é mediado pela construção de um “mundo” a parte onde os personagens do romance se escondem totalmente isolados da civilização. Sem conseguir se recuperar ou recompor sua identidade após circunstâncias traumáticas da vida, o patricara Silvestre mantém seus dois filhos e um agregado de confiança em um exílio inventado. É interessante notar como nesses romances, os fatos que desencadeiam a “fuga” dos personagens principais relacionam-se significativamente com o momento histórico no qual se situam, que é o desolamento da sociedade africana pós a guerra civil. Os conflitos oriundos desse violento processo emancipatório refletem-se nas complexas relações que esses personagens estabelecem entre passado e presente, e como elas alteram a sua subjetidade, e as concepções de tempo e espaço.

Logo, o deslocamento/desterritorialização se dá não apenas como temática ou realização formal das narrativas, antes, pode ser apreendido desde o léxico de Mia Couto, permeando todas as esferas do romance até a recepção do leitor, que ao caminhar pelas armadilhas da história e da ficção, se encontra com um mundo que de tão distante chega a parecer mítico, quando na verdade trata-se da história de um país, que como nós, esteve muito tempo sob o jugo da colonização e agora precisa reinventar a sua identidade, ou reencontrá-la nos vestígios da língua, da oralidade e dos costumes. O tom híbrido da linguagem, que mescla português culto e oralidade, prosa e poesia, recuperando palavras ancestrais e transformando a língua na formação de um novo léxico, possibilita que o leitor viaje por vários “lugares” simultaneamente. A descoberta de Mia Couto no Brasil tem sido muito comparada em relação à Guimarães Rosa, e é compreensível se notarmos a semelhança do projeto literário de ambos, na medida em que o encontro com as suas linguagens nos faz sentirmos estrangeiros em língua materna, em territórios populares, em crenças e histórias.

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3 comentários sobre “Mia Couto: histórias que vem do lado de lá

    • Certamente Carla, Mia Couto além de ser um escritor maravilhoso, é uma das personalidades mais importantes desse momento histórico e social do seu país. Acredito que ele ainda será ganhador do Nobel de literatura, tamanha a sua importância. Obrigada pela visita e pelo comentário. Abraço

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