Por trás do bigode e dos óculos: Leminski biografado

Paulo Leminski - O bandido que sabia latim, Toninho Vaz

Paulo Leminski – O bandido que sabia latim, Toninho Vaz

Leminski é dos poetas brasileiros o verdadeiro outsider, um hippie, um desajustado, que não fez questão de andar em consonância com o senso comum e apostou todas as suas cartas no poder de sua criatividade e inteligência incomparáveis. Um poeta como Leminski não se faz com bom senso e moderação, essa é a lição de Paulo Leminski – O bandido que sabia latim. A biografia do poeta curitibano foi cuidadosamente escrita pelo seu amigo Toninho Vaz, e conta com depoimentos de pessoas que de alguma forma foram próximas ao poeta, dentre eles: amigos, parceiros, artistas, e Alice Ruiz, com quem o poeta foi casado por muitos anos. Além disso, há também transcrição de cartas que o próprio Leminski escreveu, e outros escritos inéditos. A partir de todo esse material e da sua convivência com Leminski, o biógrafo pode traçar em uma escrita simples e detalhista, um amplo panorama das contradições que compuseram a vida deste que pode ser considerado um dos poetas mais audaciosos da literatura brasileira.

O biógrafo relata desde a vinda de sua família oriunda da Polônia para Curitiba até sua morte, em 24 de agosto de 1989, passando pela infância, desenvolvimento da intelectualidade, suas relações com a família, com a cidade de Curitiba, seu apego à boemia, sua presença na cena artística e cultural da década de 70 e as influências que dela reverberaram, dentre outros aspectos, através dos quais tenta abordar algumas das muitas possíveis faces desse dado complexo chamado Paulo Leminski. Toninho se detém ainda em um exame muito aguçado sobre a cidade de Curitiba, tentando compreendê-la nos diferentes contextos históricos e sociais nos quais a vida de Leminski esteve inserida, seja na observação de seus bares e frequentadores, do comportamento da sociedade, da vida artística e de como Leminski viveu suas experiências com essa cidade sóbria e provinciana.

Tendo uma forte vocação autodidata desde menino, Leminski se debruçou incansável na leitura dos clássicos e na pesquisa, da qual resultou a escrita de quatro biografias: a de Cruz e Souza, Bashô, Jesus e Trotski. Seu trabalho também se desdobrou no exercício da crítica, publicadas em três volumes, além de letras de canções e músicas gravadas por Caetano Veloso, Itamar Assumpção, entre outros nomes da MPB. Não fosse bastante, para pagar as contas e garantir a vida, trabalhou com publicidade, foi professor de história e redação, e ainda se dedicou ao conhecimento e prática de judô, arte marcial que reverberou fortemente na sua poesia, pela influência da filosofia oriental e dos haicais japoneses.

No que diz respeito às relações familiares, a biografia dá ênfase especial na amizade de Leminski com seu irmão Pedro, com quem viria a ter sérias desavenças após um tempo, e que acabara suicidando-se alguns anos antes da morte de Leminski. Outro assunto que ele trata de maneira bastante realista é quanto ao seu casamento com Alice, o desenvolvimento artístico que ambos se propiciaram, ao mesmo tempo em que se tornava notória a incapacidade de Leminski em lidar com os conflitos e responsabilidades da vida familiar, acentuados pela presença dos três filhos, João, Áurea e Estrela. Nisso conta também a forte tendência do poeta para uma vida desregrada e autodestrutiva, na qual o álcool seria o vilão, ainda que não correspondesse ao seu único vício ou exagero, já que as drogas, sobretudo, o LSD e a maconha, estiveram presentes em muitos momentos de sua vida.

No âmbito da cena artística brasileira daquele momento, a biografia traz um interessante quadro das relações que Leminski travou com vários artistas e intelectuais. Dos poetas concretistas aos nomes da Tropicália, a sua obra foi influenciada e influenciou de forma muito impactante o movimento contracultural no Brasil. Entretanto, diferente da geração que se intitulou “marginal” ou ainda,    geração mimeógrafo, a sua erudição lapidada desde a adolescência fez com que ele não se fixasse ou limitasse a uma ou outra corrente estética, e daí a ótima definição proposta no título da biografia, “o bandido que sabia latim”. Não pecando em detalhes, nem se preocupando em traçar uma imagem polida ou sofisticada, Toninho nos coloca à frente  com a genialidade e humanidade desse que foi, simultaneamente, intelectual e artista, erudito e marginal, cuja sensibilidade em transe e trânsito representa o auge das contradições dos dias estranhos de 1970.

Todas essas (pre)ocupações lhe renderam uma vida intensamente produtiva, na medida em que se autodestruía afundando no álcool e nas suas obsessões. De uma vida e poesia levadas até a última consequência, vícios, relações difíceis, perdas e por fim, a morte precoce, Leminski deixou para a história uma obra poética das mais finas do século que passou. Recentemente publicado pela Companhia das Letras, Toda Poesia, reunião de toda sua obra poética, organizado e idealizado por Alice, é a afirmação dessa constatação, alcançando um sucesso de público e vendas inimaginável para um livro de poesias em pleno ano de 2013.  A morte de Leminski, aos 44 anos, já esperada desde o seu diagnóstico de cirrose, deixou a lacuna de sua presença petulante, mas não sufocou o vigor de sua obra.

É importante esclarecer que essa biografia não se pretende em momento algum um relato imparcial da vida de Leminski, tampouco uma análise de sua obra pautada em dados de sua história pessoal. A escrita da vida de Leminski corresponde a um dos raros casos em que a vida e a obra do artista se confundem, não pela metodologia do biógrafo, mas por ser impossível desfazer a comunicação existente entre o projeto estético e a personalidade que o encerra. No mais, se por um lado Toninho Vaz não se nega a traduzir nas linhas da biografia o seu carinho e a admiração pelo poeta, narrado como um homem dotado de presença cativante, por outro lado, isso não o impede de trazer à tona seus defeitos e exageros. Não obstante, ele o faz de modo que esses não diminuam a beleza de sua vida, antes, apenas corroborem para que ela seja lida com ainda mais verdade e entrega.

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2 comentários sobre “Por trás do bigode e dos óculos: Leminski biografado

  1. Seria eu um tanto suspeito para falar alguma coisa sobre o Leminski, mas todo junkie tem meu respeito pq não é fácil conviver com a dor de dente…….haeaheaheha……….talvez o texto tenha umas orações muito longas…….são parágrafos grandes com não mais que três orações em sua maioria………na academia isso até que funciona bem, mas para mim cansa um pouco ler. Um bonito léxico, diversificado sem ser complicado……….haehaheahehaheaheha

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