para que você me transcreva

Sentar e escrever. Por vezes, um dilema tão passional quanto o nome desse blog. E a vida de um leitor é isso: há livros que pedem para falar, outros que nos calam. E há ainda o abismo que separa as páginas da tela (tela onde eu, você, outros, tentam se fazer ponte para chegar à outra margem, a da vida dita). Hoje, não saberia dizer exatamente de onde vem o ímpeto de retornar a essa página tão diferente das outras que me acompanharam nos últimos meses. Esta, página em branco, vazia. Nela tudo pode ser digitado e, no entanto, as palavras lhe caem desajustadas, como alguém que volta à casa muito depois de ter partido.

Quem me dera ter “um coração máquina de escrever”, como dizia a bonita canção de Pedro Luis que ainda ontem tocou nesse mesmo computador. Mas o meu coração ainda mais anacrônico, são cadernetas e agendas e folhas e recibos e notas de supermercado rabiscadas. Um trecho de livro, uns versos, o nome de um filme. Tenho um coração que ainda escreve a mão.

Na ordem não cronológica dos fatos-atos-tatos-olfatos de leitura, no meu próprio caminho de Swan, uma educação do coração e do ciúmes. O prazer insuspeitado do livro longo, que acompanha a cabeceira, as refeições, os minutos-horas antes do sono, o café. O desafio proustiano da memória e da reminiscência mediado pelas sensações. Que difícil amar uma mulher. Envelhecer. Lembrar.

 Do olho do furacão dessa desordem crônica, que torna difícil a tentativa escrita, revejo Sidarta. Silenciar também é saber. Esperar, aquietar-se. Uma anotação em guardanapo: “Sidarta: aprendizado da calma, busca do equilíbrio tantas vezes negado”. O livro mais silencioso que  já li. Sua palavra é o próprio rio que ensina, correr, correr, fluir, transformar, fluir, ir, correr, transbordar, esvaziar, correr.

Impossível banhar-se duas vezes no mesmo rio. Impossível reler um trecho e ter a mesma ideia, o mesmo sentimento. Reencontro Chico anotado nas palavras de Leite Derramado, mas de certo, que não é o mesmo leite que agora se espalha. “Estou pensando alto para que você me escute. E falo devagar, como quem escreve, para que você me transcreva sem precisar ser taquígrafa, você está ai?”. Estou aqui. Te reescrevo em lacunas e comunico às avessas o teu medo de esquecimento. Memória, teia de aranha. Escrever é inventar o passado.

 

 

 

 

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