no more trouble

Há uma Gota de Sangue no Cartão Postal

eu sou manhoso eu sou brasileiro
finjo que vou mas não vou minha janela é
a moldura do luar do sertão
a verde mata nos olhos verdes da mulata

sou brasileiro e manhoso por isso dentro
da noite e de meu quarto fico cismando na beira de um rio
na imensa solidão de latidos e araras
lívido
de medo e de amor

 

Francisco Alvim

 

 

Hoje voltei 50 anos atrás. Lá onde eu ainda sequer pensava em nascer. Estava sentada em um auditório de anfiteatro, ainda com os olhos pouco abertos. O orador falava sobre os impasses da Comissão da Verdade. Depoimentos. Mortes. Torturas.  Sensíveis, aquelas narrativas recuperaram em mim uma história que não se inscreveu nos relatos de sobreviventes da ditadura, nem na interpretação de historiadores, sociólogos ou afins. O que eu senti quando o peito apertou e um desejo de choro manchou os olhos, reverbera, sobretudo, das experiências de leituras de alguns poetas da década de 60 e 70, com os quais eu venho me embrenhando, há alguns anos.

Ao deslocar a questão apenas do foco político institucional para uma perspectiva mais humana e cotidiana, a poesia marginal, tal como as canções de Gil, Caetano e Chico, a voz de Elis,  foram a  linha invisível que me conectou a esse passado e que por isso hoje fez bater tão forte o coração quando o palestrante encerrou sua fala com o poético “nunca mais”. Nunca mais traz no eco a ressaca de  muitos sentimentos amalgamados: nunca mais sermos “os mesmos como nossos pais”, nunca mais o “cale-se”, nunca mais “esse samba no escuro”.

Tudo isso para explicar que para além do conhecimento histórico e consciência política adquirida em auditórios de universidades,( sem de modo algum desmerecer o trabalho dos muitos envolvidos em construir a memória desses tempos que muitos prefeririam apagados), há um discurso poético e artístico produzido durante a ditadura militar, que mais do que servir de “testemunhal”, possibilita o diálogo com a emoção, levando-nos para o campo afetivo das questões humanas, fazendo-nos capazes de experienciar a alteridade.

Eu não estava lá. Mas as imagens, e músicas, e poemas abrem a máquina do tempo e me transportam  para outro lugar da história. De dentro da arte é  possível sentir (e não apenas saber) a dor do outro, o silêncio do outro, a morte do outro. A arte é uma solidariedade sincera aos oprimidos de todas as gerações, é quem acende a chama rarefeita da liberdade.

Voltando para casa, no fone de ouvido, Bob Marley canta “No more trouble”. Pedalo rápido que é para não olhar para trás. O sentimento de pesar vem com certo tom de indignação. Quanto tempo ainda levará até que esse capítulo seja apenas uma página sem lacunas e sem mentiras? Força e resistência para os que lutam por trás dos papéis. Formulários, pesquisas, declarações. Os poetas, esses seguirão lutando a luta vã com as palavras.

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