a medida da memória

“Era como se a cada passo eu me rasgasse um pouco, porque minha pele tinha ficado presa naquela mulher.” Esse é o último trecho de Leite Derramado que tomei nota na caderneta de leituras.Era provavelmente janeiro, mas por deslize ou despretensão não guardei a data. Leite Derramado foi algo de uma vertigem. E só agora, passados alguns meses, decantadas as palavras e guardadas já em algum lugar que sabe-se-lá qual é, seus trechos me sobem como maré numa memória de leitura e um desejo de escrita. 

Esse subir de maré tem nome e hora marcada: Sexta-feira de um julho invernal, entro no ônibus que sai da barra-funda ao meio dia. Na bolsa trago um livro pequeno e vermelho: um copo de cólera, de Raduan Nassar. A voz que vem desenfreada e sem pudores é a de um homem. Uma voz tenra e uma linguagem táctil. Pouco ou nada sei desse homem e da mulher que se encontram no interior de uma casa. E ele me conta: do chegar, da cama, do acordar, do banho e do café da manhã. Cada detalhe desvelado pela fresta do tesão. Na quase não ação desses acontecimentos é sua voz pensamento que preenche o vazio sem falas, e do não-dito se faz a narrativa. Memória. Num súbito Chico vem. “Estou pensando alto para que você me escute. E falo devagar,como quem escreve, para que você me transcreva sem precisar ser taquígrafa, você está ai?”.

E é assim que um copo de cólera é também leite derramado. Palavra que significa o passado irrecuperável. Tem urgência de não esquecer a sensação – o toque, o gosto, o cheiro, o tom. Mas sabe que não pode apreender o todo. E o que vem na linguagem são caprichos, sobras, e o que se pode narrar são frações de um prazer e de uma dor. A linguagem desfaz as medidas. E pode revelar a superfície mais profunda. Se o corpo arde faz queimar a língua da palavra. Se transborda, a palavra se encharca. 

Tão intenso é o que verte dessas falas, que pouco posso me recordar das ações em Leite Derramado. Lembro-me de ser pequena e minha mãe pedir pra olhar o leite no fogão. Eu ficava atenta, fitando o caldeirãozinho com cuidado, e nada acontecia. Aí uma distração qualquer – devaneio mínimo – e pronto: o cheiro de leite queimando nas bordas e escorrendo pelo alumínio. Assim – totalmente assim – foi esse livro: uma distração qualquer e o livro se foi escorrer pelas bordas, deixando apenas algumas palavras anotadas, que nem mesmo fazem sentido juntas e, no entanto, vez ou outra voltam como cheiro do leite em contato com o fogo. “Porque assim suspensa e de cabelos presos, mais intensamente ela era ela em seu balanço guardado, seu tumulto interior, seus gestos e risos por dentro, para sempre…”

Tumulto interior é um nome pra essa agitação que perturba a linguagem. Um copo de cólera tem tesão e ira escorrendo pelos cantos da boca perversa e línguas ferinas. A voz dela demora a aparecer. Mas vem. Irrompe numa corrente forte de ironias e maltratos, maldades, afiada feito espada que corta dentro e fora, transpassa o orgulho do macho, animalesco, que inutilmente se tenta esconder sob a aparência das palavras claras. Ela zomba, gargalha da verborragia que só faz vir a tona a face monstruosa. Turva os significados e os sentidos. Envenena a alma. Não é exercício retórico construitivo: é destruição. Faz ir abaixo os alicerces do conforto e do bem estar a dois. Culmina no tapa na cara: tapa com mãos de verdade,sangue quente, e face vermelha.

Um copo de cólera é a medida de não ter medidas nas palavras. Leite Derramado é o excesso que escancara a ausência. São movimentos contrários e parecidos. E abrem a reserva interior que em mim se enchia – pouco a pouco – para um turbilhão de emoções e anseios. Preciso escrever. escrever. (te escrever). Para que não desvaneçam a tua presença e a tua ausência. Preciso recortar fotografias invisíveis. Criar laços entre diferentes tempos e espaços. Narrar para mim mesma os dias, as memórias, os sonhos. Tatuar na pele do texto o indizível. Traduzir.

 

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