selfie junkie – Nan Goldin no MASP

2_Nan-Goldin_In-my-hall-Berlin_2013http://www.artnet.com/artists/nan-goldin/artworks

(para ver algumas fotos de Nan Goldin)

De dentro de um mundo ordenado (e isso me lembra muito as primeiras páginas de Demian) cultivei nos últimos anos, em um  canto de quarto escuro metafórico, flores junkies, poetas suicidas, pequenos niilismos, agonias sartrianas y otras cositas más. Outro dia alguém me falou sobre certo gosto pelo melancólico, pelo sensual e pelo insólito. Sobre estar fora do meu tempo. As músicas setentistas. Aquelas de “cortar os pulsos, mesmo”. Penso em uma atriz no camarim. Olhos de ressaca. Cigarro aceso. Versos de um poema mal terminado ‘fenda e fresta/ quem você é/ quando acaba a festa’.

Da margem desse universo que eu vislumbro mas não pertenço – o universo das pessoas que olham profundas para o fundo do poço – teatralizo a vida e me sento em frente a essa tela. Caneca de chá, cheirando a morango e hibisco. Algumas peças de roupa espalhadas pelo quarto. Os livros. Nem sei se é realmente essa a cena ou se tudo não passa de minha sensibilidade dramática. Tenho aberta uma página de fotografias de uma mulher que recentemente conheci no masp. Conheci? Bem. Era apenas uma fotografia. Uma fotografia colorida dentre outras cinquenta ou mais em preto e branco. E só sei que foi assim. Desde essa tarde na galeria sua imagem volta colorida na retina e pede que eu diga alguma coisa.

Nan Goldin: uma única foto sua, auto-retratada frente ao espelho. Ao lado das sensuais e felinas mulheres de Man Ray. (Ainda em SP encontrei-me com uma amiga apaixonada por Man Ray. E imaginei que ela deveria muito ter uma câmera em breve.) Então ali, na galeria, existia essa mulher, o espelho e a fotografia. Ou ainda: existia Nan Goldin três vezes. E depois uma quarta vez, quando eu a olhei. E foi  bonito o que aconteceu diante dessa foto. Descobrir a poesia e a beleza onde o belo não está.

Beleza do beco. Dos rostos marcados. Beleza do drama. Do vício. Da obsessão. A fotografia de Nan Goldin veio nessa tarde impregnada de um sentimento que poucas criaturas me despertam. Poderia dizer: Ana Cristina César. Uma amiga Marina. Janis Joplin. Elis. Seu universo autobiográfico, retrato oblíquo da vida privada, capturado por lente sensível e doída, é qualquer coisa que rompe a quarta parede. Demolindo a ilusão. Não precisava ler notas de sua biografia para sentir o que pulsava por trás das câmeras e se revelava no filme.

Suas cores e expressões simultaneamente reais e teatrais me deram a ideia novamente de vida e arte que se imbricam, misturam, confundem. Nan Goldin encontrou nos ângulos de quartos, camas, banheiros, bares e ruas, certa permanência melancólica e destrutiva. Nos rostos maquiados e corpos nus, nas vidas largadas entre corredores sujos, sua lente deixa entrever faces de um prazer trágico. Making-off rock’n roll da vida vivida entre os delírios da noite e a ressaca dos dias.

No seu espelho autobiográfico me enxergo. Vejo reminiscências de sentimentos que às vezes me deformam  nos dias difíceis. Desejos de queda. Imaginar como é o fundo do fundo do poço. Qualquer entrega ao sensual sem censura. Abandonar-me ao vazio em mergulho vertiginoso. Para depois, numa manhã de sol, voltar ao corpo.  Lavar a alma, lavar o rosto, e cruzar a ponte que fará retornar do outro lado do lago, do lado B do disco, do dark side of the moon para onde ainda nunca viajei.

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