contra a agressividades das xícaras de café

chaEu sou, definitivamente, uma pessoa que bebe café. Para acordar, para pensar, preparar aula, ler, corrigir textos, ter uma prosa amiga, digerir a angústia do lusco-fusco, sentir saudade ( e depois para matar saudade). Bebo café em casa, no trabalho, na rua, no restaurante, sozinha e acompanhada, com açúcar ou com adoçante. Se eu te convido para um café, não tenha dúvida: eu gosto muito de você. Porque essa experiência, mista de significados banais e ritualísticos, é o que me conecta, dia após dia, ao mundo material e afetivo.

Dito isso, é preciso contar que: pessoas que bebem muito café costumam ter uns incômodos físicos rotineiros, tais como dores de cabeça na abstinência, ou facas no estômago no excesso. Logo, eu que em nada me difiro dos demais da minha espécie, já me acostumei, dia sim outro também, a essas intempéries, afinal, é preciso abrir os olhos e encarar – sim, encarar como em um combate – as 24 horas de todos os dias.

Pessoas amadas e outras nem tanto já me intimaram, um tanto incontáveis de vezes, a diminuir a cafeína. Os motivos alegados são os mais diversos, e variam desde um interesse inexplicável pela coloração dos meus dentes até uma genuína preocupação com a minha sanidade mental em dias de muito trabalho. No entanto, nunca, nun-qui-nha, nenhuma delas conseguiu me demover da ideia/hábito, e o resultado alcançado, no máximo, foi me irritar pela intromissão naquilo que eu considero o meu vício de estimação.

Foi assim que cheguei até aqui, aos meus 26 anos, em um sábado de manhã, indo visitar a livraria e parando no shopping para um maravilhoso (contém exagero) expresso matinal. Veja, a cena precisa ser completa: é uma manhã outonal, com todos os clichês de luz do sol e frio na pele. Há um vento agradável. É possível, enfim, após uma semana infernal, sair de casa e esquecer as propostas de redação e as provas para corrigir. Compro um livro, romance contemporâneo, escritora marroquina. Sábados são dias apropriados para correr riscos, nesse caso, fugir da escolha óbvia por um clássico, e me aventurar em uma autora da qual até então não conheço nem o nome.

O livro tem um título encantador. A elegância do ouriço. A escrito, Muriel Barbery, me contará uma historinha bem francesa sobre gente rica que mora em um prédio rico, espiando suas manias, pensamentos, relações. Logo, sou apresenta a uma das narradoras-personagens, uma adolescente de 12 anos que, por ser intelectualmente brilhante e demasiado sensível à metafísica de sua própria existência, planeja se suicidar, no seu aniversário de 13 anos.

Mas isso não é exatamente o que me importa aqui. Importa que, em um capítulo no qual a mocinha faz anotações a respeito de seus pensamentos profundos, como ela chama seu diário de notas, e conta que inspirada por sua avó, tomou a corajosa decisão de recriar seus cafés da manhã. Agora, sua bebida oficial do café será chá de jasmim, acompanhada sempre da leitura de um mangá. Segundo ela, o café da manhã é uma atitude, para muitos, de preparação para a guerra do dia. E o famoso café com jornal encerraria em si, algo de agressivo, uma não-delicadeza, uma armadura que se veste todas as manhãs e nos blinda contra o difícil do mundo. O chá, por sua vez, calmo e sereno, é a proposta de uma atitude contemplativa e guarda em si uma pausa – quase mítica – na qual é possível respirar uma sabedoria ancestral.

A sutileza dessa escolha, a flor pelo café, me capturou de tal maneira que não pude passar mais um dia sequer sem considerar a preciosidade desse capítulo, e me sentir intimamente tocada por essa garota-personagem, que aos seus 12 anos, me deu uma lição (que provavelmente não seguirei), digna de nota no caderninho de leituras. Assim como Paloma , como ela se chama, que a um ano de seu suicídio inicia seu diário de pensamentos profundos, além do que ela lindamente chama de “diário do movimento do mundo”, estou voltando a escrita biográfica, e considerando, seriamente, que a hora do chá está chegando na minha vida.

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