back to blue ou flores azuis

we only say goodbye with words

I died a hundred times

(Back to black – Amy Whinehouse)

Escrevo esse ensaio ao som de Amy, porque ela, talvez, seja para mim uma das vítimas mais apaixonantes do amor romântico. Em uma galeria imensa de histórias de amor sufocantes, que têm muito menos de amor que de ódio, todos já fomos um pouco personagens e já nos vimos às voltas com as violentas contradições do desejo. Socos na parede. Objetos estilhaçados pelos cômodos. E todos os clichês teatrais das brigas de casal. A encenação da raiva que começa como um jogo e cresce até extrapolar os limites da ficção. É mais ou menos assim que Carola Saavedra me apresenta Flores azuis, um romance,  que em uma primeira impressão, seria um livro sobre o amor. Ainda que seja apenas especulação, esse título me lembra a flor azul de Novalis, escritor do romantismo alemão, para quem ela simbolizaria a busca pelo infinito, pela perfeição, a raridade e beleza do amor ideal.

Estruturado em uma narrativa que alterna cartas de uma mulher, “A.”, e a obervação da rotina de um homem, Marcos, o qual um tanto quanto acidentalmente recebe essas cartas endereçadas a uma outra pessoa, o livro me leva a crer que ali há uma história como as muitas outras que já lemos, vimos e vivemos: relações mal explicadas, términos abruptos, o sofrimento das separações. Contudo, o que se desvela a cada nova carta que chega, na elaboração cifrada e imprecisa dos fatos que levaram “A.” e seu amante ao rompimento, é a violência emocional com que se constroem silêncios, a dominação do outro pelo medo, a impossibilidade da espontaneidade em um cotidiano no qual a mínima instabilidade pode levar  a rompantes agressivos e, sobretudo, a dependência viciosa que faz com que as vítimas de relacionamentos abusivos romantizem seus pares, e terminem tão fragilizadas ao ponto de não se reconhecerem como merecedoras de amor.

Seria demasiado autobiográfico dizer que isso reflete, se não totalmente, em partes, uma trama vivida de perto e da qual saí inteira, embora aos pedaços. Back to black. Esse é o assustador em Flores azuis. Um livro do qual é impossível gostar, porque ao final, a náusea que ele provoca, ao revirar esses terrenos movediços da memória, provoca um desarranjo na ordem natural da vida e das coisas.  É um misto de alívio, por ter sobrevivido, e a revolta, por ter ousado imaginar que existia amor onde só florescia a raiva, erva daninha, destruindo toda a beleza que quisesse crescer ao redor. Viver essa experiência de leitura é voltar àquele lugar – devidamente trancado e do qual não se fala – em que o dia tem uma existência insólita e a angústia das horas nunca termina, manhã após manhã.

Às vezes apenas a medida do tempo e do distanciamento deixam entrever os absurdos que se passam por normalidades dentro de apartamentos, casas e carros, nos quais pequenas tragédias do amor acontecemA liberdade é azul. Porque nos ensinaram que se gritam conosco, é por amor. E se nos batem, é por amor. E que o algoz também sofre na violência, mas esta, é necessária, como mecanismo de uma educação sentimental. E agora, sinceramente, não entendo como é possível conviver com a aceitação dessa verdade, anos a fio, e depois ter  de arrancar de si força como se arranca a um tumor, para rebelar-se contra a resignação e escapar dos jogos – repletos de raiva e ressentimento – que estão no tabuleiro todos os dias e que ao menor movimento hesitante, alguém vira as peças sobre a mesa e nos esmaga.

Como um ramo de flores pisoteado.

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