por que hablamos?

Nascemos. E nos dão assim de imediato país e idioma. As primeiras canções, os primeiros afetos, ainda balbuciados, nos chegam aos ouvidos brasileiros. E em dialetos portugueses crescemos em tamanho e linguagem. Nunca se pergunta aos niños em que língua se querem expressar e incansavelmente corrigem às crianças a conjugação dos verbos e os neologismos doces. Nosso amor e fraternidade definem-se em dicionário materno, monolíngue. Hasta que un día nos cheguem pelo rádio, pela tv, pelas telas virtuais, outros sons e diversos sentidos, sim, outras palavras.A descoberta de um outro idioma inaugura nas nossas vidas possibilidades de sentir e ser o que antes jamais ousáramos em nossa língua. As ideias de comunidade e pertencimento descontornam-se para se expandirem. Amamos  a fonética e a sintaxe estranha que despertam em cada um de nós o estrangeiro que nos habita. E nos transformamos em outros – personagens? – cada vez que deixamos escapar de dentro uma palavra

Assim é, que como me ensinou um professor, ao usarmos outra língua, somos seres performáticos. Atores de nós mesmos. Senão, veja: me sento em um café na avenida as quatro da tarde. Óculos escuros e cachecol no pescoço. Gostaria que quando eu abrisse a boca as palavras fluíssem ensolaradas em francês. (Mas eu não falo francês e, contudo, ali é como se.) ou então nova imagem: Entro num ônibus pela manhã, cabeça coberta com um lenço. Poeticamente me finjo árabe. Claro: não poderia pronunciar um único “bom dia”. E provavelmente, teria que ser uma gênia poliglota para comportar idiomaticamente todas as performances encenadas na vida real. Mas há, de qualquer forma, nessa subjetividade estrangeira, ou nesse não cabimento em limites pátrios, uma vontade/desejo/necessidade de romper a identidade que nos é forjada dia-a-dia, para experimentar tantas outras.

Se deixamos de pensar na línguas apenas como ferramenta comunicativa para compreendê-la como simultaneamente formadora e reflexo de nossas identidades , podemos observar quão diversas são as afinidades “eletivas” que nos conectam a outros idiomas, assim como o que certos idiomas dizem simbolicamente para determinados grupos estrangeiros e, o que mais importa a esse texto: por que muitas vezes preferimos nos expressar estrangeiramente?

Parece-me, algo assim bem intuitivo, que podemos distinguir dentre o prisma de afinidades, fatores da experiência individual e coletiva que perpassam nossas escolhas quando decidimos aprender, ou tão somente usar, (ainda que isso nunca seja um somente) outra língua. Eu, por exemplo, como muitos outros no Brasil, trago no sobrenome a herança italiana. Esse laço sanguíneo demorou a evidenciar-se linguístico, até encontrar um dia numa palavra de afeto a conexão com o passado. (Sim – os idiomas não nos conectam apenas a outros territórios, mas também podem aproximar experiências separadas pelo tempo). Poderia falar também do motivo totalmente obscuro que me levou a escolher a língua alemã para cursar durante toda a graduação. Essa escolha, aparentemente desprovida de sentido, demorou a ressoar no campo afetivo da vida, até que em determinado momento, através da arte cinematográfica e da literatura, acendeu-se no peito a pequena luz que fez ver uma beleza nessa intenção.

Quando comecei esse texto, tudo que eu queria dizer era que, existem palavras, expressões, sentidos, que apenas buscados num idioma outro, estrangeiro, quase que clandestino, podem dizer com clareza e verdade sobre o que sentimos. Uma língua é também uma visão de mundo, uma interpretação da realidade, uma subjetividade compartilhada. E, muitas vezes, a língua materna com toda sua variedade lexical, sintática e expressiva, é insuficiente para materializar algumas experiências do pensamento que fogem à concepção do lugar comum.

Esse amálgama de ideias, nasceu de uma caminhada no parque, enquanto eu pensava que ao dizer “te extraño”, em espanhol, eu podia dar vida a um sentimento que não se podia nomear da mesma forma se eu dissesse que tenho saudade. Entretanto, logo a faceta da linguista escondida bem mas bem lá no fundo de mim transformou o texto em outra coisa y ahora cá estamos, a pensar tudo isso e sem saber como concluir a linha de raciocínio.

Pode ser que talvez, e só talvez, o ponto principal desse texto seja pensar porque ainda temos uma noção de língua tão permeada pela ideia de nacionalidade, e porque isso tem durante tanto tempo restringido nossas vivências a uma vida com legendas. Nossa identidade está onde está nosso espírito, e isso está longe de significar que nos sentimos acolhidos e que pertencemos ao lugar físico ou ponto geográfico do mapa em que nos situamos.

Para além de um mundo em inglês, para além da língua materna, para além dos códigos universais de comunicação, há uma torre de babel onde podemos desfrutar a dádiva de sermos não compreendidos, às vezes, e, contudo, sabermos que nossas palavras são provavelmente o mais real de tudo que nos rodeia. Por que nos recusarmos, então, a sermos antropofágicos verbalmente? A língua é viva, dinâmica, existe quando tomada de assalto pelo falante e resiste quando não cristalizada pelo poder. Vamos estender o princípio de partilha, de apropriação, de comunidade para além dos territórios