back to blue ou flores azuis

we only say goodbye with words

I died a hundred times

(Back to black – Amy Whinehouse)

Escrevo esse ensaio ao som de Amy, porque ela, talvez, seja para mim uma das vítimas mais apaixonantes do amor romântico. Em uma galeria imensa de histórias de amor sufocantes, que têm muito menos de amor que de ódio, todos já fomos um pouco personagens e já nos vimos às voltas com as violentas contradições do desejo. Socos na parede. Objetos estilhaçados pelos cômodos. E todos os clichês teatrais das brigas de casal. A encenação da raiva que começa como um jogo e cresce até extrapolar os limites da ficção. É mais ou menos assim que Carola Saavedra me apresenta Flores azuis, um romance,  que em uma primeira impressão, seria um livro sobre o amor. Ainda que seja apenas especulação, esse título me lembra a flor azul de Novalis, escritor do romantismo alemão, para quem ela simbolizaria a busca pelo infinito, pela perfeição, a raridade e beleza do amor ideal.

Estruturado em uma narrativa que alterna cartas de uma mulher, “A.”, e a obervação da rotina de um homem, Marcos, o qual um tanto quanto acidentalmente recebe essas cartas endereçadas a uma outra pessoa, o livro me leva a crer que ali há uma história como as muitas outras que já lemos, vimos e vivemos: relações mal explicadas, términos abruptos, o sofrimento das separações. Contudo, o que se desvela a cada nova carta que chega, na elaboração cifrada e imprecisa dos fatos que levaram “A.” e seu amante ao rompimento, é a violência emocional com que se constroem silêncios, a dominação do outro pelo medo, a impossibilidade da espontaneidade em um cotidiano no qual a mínima instabilidade pode levar  a rompantes agressivos e, sobretudo, a dependência viciosa que faz com que as vítimas de relacionamentos abusivos romantizem seus pares, e terminem tão fragilizadas ao ponto de não se reconhecerem como merecedoras de amor.

Seria demasiado autobiográfico dizer que isso reflete, se não totalmente, em partes, uma trama vivida de perto e da qual saí inteira, embora aos pedaços. Back to black. Esse é o assustador em Flores azuis. Um livro do qual é impossível gostar, porque ao final, a náusea que ele provoca, ao revirar esses terrenos movediços da memória, provoca um desarranjo na ordem natural da vida e das coisas.  É um misto de alívio, por ter sobrevivido, e a revolta, por ter ousado imaginar que existia amor onde só florescia a raiva, erva daninha, destruindo toda a beleza que quisesse crescer ao redor. Viver essa experiência de leitura é voltar àquele lugar – devidamente trancado e do qual não se fala – em que o dia tem uma existência insólita e a angústia das horas nunca termina, manhã após manhã.

Às vezes apenas a medida do tempo e do distanciamento deixam entrever os absurdos que se passam por normalidades dentro de apartamentos, casas e carros, nos quais pequenas tragédias do amor acontecemA liberdade é azul. Porque nos ensinaram que se gritam conosco, é por amor. E se nos batem, é por amor. E que o algoz também sofre na violência, mas esta, é necessária, como mecanismo de uma educação sentimental. E agora, sinceramente, não entendo como é possível conviver com a aceitação dessa verdade, anos a fio, e depois ter  de arrancar de si força como se arranca a um tumor, para rebelar-se contra a resignação e escapar dos jogos – repletos de raiva e ressentimento – que estão no tabuleiro todos os dias e que ao menor movimento hesitante, alguém vira as peças sobre a mesa e nos esmaga.

Como um ramo de flores pisoteado.

contra a agressividades das xícaras de café

chaEu sou, definitivamente, uma pessoa que bebe café. Para acordar, para pensar, preparar aula, ler, corrigir textos, ter uma prosa amiga, digerir a angústia do lusco-fusco, sentir saudade ( e depois para matar saudade). Bebo café em casa, no trabalho, na rua, no restaurante, sozinha e acompanhada, com açúcar ou com adoçante. Se eu te convido para um café, não tenha dúvida: eu gosto muito de você. Porque essa experiência, mista de significados banais e ritualísticos, é o que me conecta, dia após dia, ao mundo material e afetivo.

Dito isso, é preciso contar que: pessoas que bebem muito café costumam ter uns incômodos físicos rotineiros, tais como dores de cabeça na abstinência, ou facas no estômago no excesso. Logo, eu que em nada me difiro dos demais da minha espécie, já me acostumei, dia sim outro também, a essas intempéries, afinal, é preciso abrir os olhos e encarar – sim, encarar como em um combate – as 24 horas de todos os dias.

Pessoas amadas e outras nem tanto já me intimaram, um tanto incontáveis de vezes, a diminuir a cafeína. Os motivos alegados são os mais diversos, e variam desde um interesse inexplicável pela coloração dos meus dentes até uma genuína preocupação com a minha sanidade mental em dias de muito trabalho. No entanto, nunca, nun-qui-nha, nenhuma delas conseguiu me demover da ideia/hábito, e o resultado alcançado, no máximo, foi me irritar pela intromissão naquilo que eu considero o meu vício de estimação.

Foi assim que cheguei até aqui, aos meus 26 anos, em um sábado de manhã, indo visitar a livraria e parando no shopping para um maravilhoso (contém exagero) expresso matinal. Veja, a cena precisa ser completa: é uma manhã outonal, com todos os clichês de luz do sol e frio na pele. Há um vento agradável. É possível, enfim, após uma semana infernal, sair de casa e esquecer as propostas de redação e as provas para corrigir. Compro um livro, romance contemporâneo, escritora marroquina. Sábados são dias apropriados para correr riscos, nesse caso, fugir da escolha óbvia por um clássico, e me aventurar em uma autora da qual até então não conheço nem o nome.

O livro tem um título encantador. A elegância do ouriço. A escrito, Muriel Barbery, me contará uma historinha bem francesa sobre gente rica que mora em um prédio rico, espiando suas manias, pensamentos, relações. Logo, sou apresenta a uma das narradoras-personagens, uma adolescente de 12 anos que, por ser intelectualmente brilhante e demasiado sensível à metafísica de sua própria existência, planeja se suicidar, no seu aniversário de 13 anos.

Mas isso não é exatamente o que me importa aqui. Importa que, em um capítulo no qual a mocinha faz anotações a respeito de seus pensamentos profundos, como ela chama seu diário de notas, e conta que inspirada por sua avó, tomou a corajosa decisão de recriar seus cafés da manhã. Agora, sua bebida oficial do café será chá de jasmim, acompanhada sempre da leitura de um mangá. Segundo ela, o café da manhã é uma atitude, para muitos, de preparação para a guerra do dia. E o famoso café com jornal encerraria em si, algo de agressivo, uma não-delicadeza, uma armadura que se veste todas as manhãs e nos blinda contra o difícil do mundo. O chá, por sua vez, calmo e sereno, é a proposta de uma atitude contemplativa e guarda em si uma pausa – quase mítica – na qual é possível respirar uma sabedoria ancestral.

A sutileza dessa escolha, a flor pelo café, me capturou de tal maneira que não pude passar mais um dia sequer sem considerar a preciosidade desse capítulo, e me sentir intimamente tocada por essa garota-personagem, que aos seus 12 anos, me deu uma lição (que provavelmente não seguirei), digna de nota no caderninho de leituras. Assim como Paloma , como ela se chama, que a um ano de seu suicídio inicia seu diário de pensamentos profundos, além do que ela lindamente chama de “diário do movimento do mundo”, estou voltando a escrita biográfica, e considerando, seriamente, que a hora do chá está chegando na minha vida.

Por trás do bigode e dos óculos: Leminski biografado

Paulo Leminski - O bandido que sabia latim, Toninho Vaz

Paulo Leminski – O bandido que sabia latim, Toninho Vaz

Leminski é dos poetas brasileiros o verdadeiro outsider, um hippie, um desajustado, que não fez questão de andar em consonância com o senso comum e apostou todas as suas cartas no poder de sua criatividade e inteligência incomparáveis. Um poeta como Leminski não se faz com bom senso e moderação, essa é a lição de Paulo Leminski – O bandido que sabia latim. A biografia do poeta curitibano foi cuidadosamente escrita pelo seu amigo Toninho Vaz, e conta com depoimentos de pessoas que de alguma forma foram próximas ao poeta, dentre eles: amigos, parceiros, artistas, e Alice Ruiz, com quem o poeta foi casado por muitos anos. Além disso, há também transcrição de cartas que o próprio Leminski escreveu, e outros escritos inéditos. A partir de todo esse material e da sua convivência com Leminski, o biógrafo pode traçar em uma escrita simples e detalhista, um amplo panorama das contradições que compuseram a vida deste que pode ser considerado um dos poetas mais audaciosos da literatura brasileira.

O biógrafo relata desde a vinda de sua família oriunda da Polônia para Curitiba até sua morte, em 24 de agosto de 1989, passando pela infância, desenvolvimento da intelectualidade, suas relações com a família, com a cidade de Curitiba, seu apego à boemia, sua presença na cena artística e cultural da década de 70 e as influências que dela reverberaram, dentre outros aspectos, através dos quais tenta abordar algumas das muitas possíveis faces desse dado complexo chamado Paulo Leminski. Toninho se detém ainda em um exame muito aguçado sobre a cidade de Curitiba, tentando compreendê-la nos diferentes contextos históricos e sociais nos quais a vida de Leminski esteve inserida, seja na observação de seus bares e frequentadores, do comportamento da sociedade, da vida artística e de como Leminski viveu suas experiências com essa cidade sóbria e provinciana.

Tendo uma forte vocação autodidata desde menino, Leminski se debruçou incansável na leitura dos clássicos e na pesquisa, da qual resultou a escrita de quatro biografias: a de Cruz e Souza, Bashô, Jesus e Trotski. Seu trabalho também se desdobrou no exercício da crítica, publicadas em três volumes, além de letras de canções e músicas gravadas por Caetano Veloso, Itamar Assumpção, entre outros nomes da MPB. Não fosse bastante, para pagar as contas e garantir a vida, trabalhou com publicidade, foi professor de história e redação, e ainda se dedicou ao conhecimento e prática de judô, arte marcial que reverberou fortemente na sua poesia, pela influência da filosofia oriental e dos haicais japoneses.

No que diz respeito às relações familiares, a biografia dá ênfase especial na amizade de Leminski com seu irmão Pedro, com quem viria a ter sérias desavenças após um tempo, e que acabara suicidando-se alguns anos antes da morte de Leminski. Outro assunto que ele trata de maneira bastante realista é quanto ao seu casamento com Alice, o desenvolvimento artístico que ambos se propiciaram, ao mesmo tempo em que se tornava notória a incapacidade de Leminski em lidar com os conflitos e responsabilidades da vida familiar, acentuados pela presença dos três filhos, João, Áurea e Estrela. Nisso conta também a forte tendência do poeta para uma vida desregrada e autodestrutiva, na qual o álcool seria o vilão, ainda que não correspondesse ao seu único vício ou exagero, já que as drogas, sobretudo, o LSD e a maconha, estiveram presentes em muitos momentos de sua vida.

No âmbito da cena artística brasileira daquele momento, a biografia traz um interessante quadro das relações que Leminski travou com vários artistas e intelectuais. Dos poetas concretistas aos nomes da Tropicália, a sua obra foi influenciada e influenciou de forma muito impactante o movimento contracultural no Brasil. Entretanto, diferente da geração que se intitulou “marginal” ou ainda,    geração mimeógrafo, a sua erudição lapidada desde a adolescência fez com que ele não se fixasse ou limitasse a uma ou outra corrente estética, e daí a ótima definição proposta no título da biografia, “o bandido que sabia latim”. Não pecando em detalhes, nem se preocupando em traçar uma imagem polida ou sofisticada, Toninho nos coloca à frente  com a genialidade e humanidade desse que foi, simultaneamente, intelectual e artista, erudito e marginal, cuja sensibilidade em transe e trânsito representa o auge das contradições dos dias estranhos de 1970.

Todas essas (pre)ocupações lhe renderam uma vida intensamente produtiva, na medida em que se autodestruía afundando no álcool e nas suas obsessões. De uma vida e poesia levadas até a última consequência, vícios, relações difíceis, perdas e por fim, a morte precoce, Leminski deixou para a história uma obra poética das mais finas do século que passou. Recentemente publicado pela Companhia das Letras, Toda Poesia, reunião de toda sua obra poética, organizado e idealizado por Alice, é a afirmação dessa constatação, alcançando um sucesso de público e vendas inimaginável para um livro de poesias em pleno ano de 2013.  A morte de Leminski, aos 44 anos, já esperada desde o seu diagnóstico de cirrose, deixou a lacuna de sua presença petulante, mas não sufocou o vigor de sua obra.

É importante esclarecer que essa biografia não se pretende em momento algum um relato imparcial da vida de Leminski, tampouco uma análise de sua obra pautada em dados de sua história pessoal. A escrita da vida de Leminski corresponde a um dos raros casos em que a vida e a obra do artista se confundem, não pela metodologia do biógrafo, mas por ser impossível desfazer a comunicação existente entre o projeto estético e a personalidade que o encerra. No mais, se por um lado Toninho Vaz não se nega a traduzir nas linhas da biografia o seu carinho e a admiração pelo poeta, narrado como um homem dotado de presença cativante, por outro lado, isso não o impede de trazer à tona seus defeitos e exageros. Não obstante, ele o faz de modo que esses não diminuam a beleza de sua vida, antes, apenas corroborem para que ela seja lida com ainda mais verdade e entrega.

Mia Couto: histórias que vem do lado de lá

A língua é um território flutuante sobre o qual assentamos as nossas histórias e através do qual podemos caminhar pelos entre-lugares da identidade e da alteridade. Na grande placa tectônica imaginária da língua portuguesa, muitas vezes desconhecemos os outros com os quais partilhamos uma história e uma raiz, de modo que sua linguagem nos chega estrangeira, assim como os homens que nela habitam. As diferenças históricas e culturais entre brasileiros, portugueses e africanos, longe de se resolverem na língua, nela se evidenciam e reivindicam, fazendo com que nos encontremos e tomemos também conhecimento desses outros, que se mostram em palavras e sotaques, em sintaxes e poéticas, em narrativas e entrelinhas.

De fato, resguardadas as diferenças que dão vida própria a cada manifestação da língua portuguesa nos diversos espaços físicos onde ela se materializa, há um esforço político e cultural crescente para aproximação do que se chamaria de comunidade lusófona, ou seja, dos países falantes da língua portuguesa. Na área dos estudos culturais, há publicações muito interessantes buscando estabelecer uma relação entre as literaturas de língua portuguesa,  no sentido de ultrapassar a fronteira da análise comparada, não obstante, buscando compreendê-las como um macrossistema literário que possibilita e cria novas formas de resistências aos esquemas e ideologias hegemônicos, a fim de quebrar o pacto da colonização cultural. A obra Literatura, História e Política de Benjamin Abdala Júnior é uma boa indicação para aprofundamento dessa reflexão.

Nesse novo cenário que se configura, de trocas e relações culturais, as literaturas africanas passam a ter maior visibilidade ao lado da literatura portuguesa e da brasileira, sendo recebida com um misto de estranhamento e identificação, que sentimos ao entrar em contato com os falantes maternos de outras comunidades. Desse novo contato destaca-se a recepção do moçambicano Mia Couto entre os leitores brasileiros. Sendo reconhecido atualmente como um dos mais importantes escritores africanos de língua portuguesa, tanto pelas suas publicações literárias, que abrangem contos, romances e poesia, quanto pela sua importante participação como pensador das questões culturais que envolvem os países recém-independentes da África, a sua obra tem sido amplamente publicada e divulgada no Brasil, ganhando espaço também nas discussões acadêmicas sobre literatura contemporânea, identidade, comunidade lusófona, etc.

Na geografia da literatura de língua portuguesa, a linguagem literária de Mia Couto surge como um possível local de confluência entre o estrangeirismo e a empatia, uma vez que o leitor vivencia, através de uma narrativa fortemente imaginativa e poética, experiências de deslocamento que possibilitam a desterritorialização do seu imaginário para áreas fronteiriças, híbridas e instáveis. Para falar um pouco mais dessas questões, tomarei por base a leitura dos romances Terra Sonâmbula (2007), Venenos de Deus, remédios do Diabo (2008) e Antes de nascer o mundo (2009). Ambas as obras transitam, em vários níveis, através das invisíveis e tênues linhas que dividem imaginação e memória, estrangeirismo e identidade, realidade e devaneio. Essas linhas são cruzadas na constituição dos personagens principais dos romances, das suas paisagens e do próprio léxico com que a história é contada.

 No caso de Terra Sonâmbula (2007), o personagem principal é um menino que após ter perdido a família durante a guerra civil e, consequentemente, sua história de vida e identidade, se vê vagando pela estrada em meio à desolação do espaço, ao lado do velho Tuahir, um senhor que ele não sabe como conheceu, mas que se mostra como seu cuidador e responsável. Ao deparar-se com a carcaça de um ônibus queimado na estrada, Muidinga encontra folhas perdidas de um diário, chamado Caderno de Kindzu. A partir dessa descoberta, a narrativa de Muidinga e Kindzu passa a ser contada paralelamente, sendo que em muitos momentos suas histórias se imbricam, fazendo com que ambas as identidades se confundam.

A paisagem do romance é marcada por espaços de transitoriedade e movimento, seja na estrada de Muidinga, ou nas viagens de Kindzu em busca de sua origem. O que separa as duas narrativas em um primeiro momento é o caráter histórico da primeira e o mitológico da segunda, no entanto, a imaginação e o devaneio surgem como desestabilizadores dessa ordem, levando a história de Muidinga para um plano onírico que não corresponde à realidade do mundo material. Quanto a essa transição de narrativas e planos, é importante ressaltar que a introdução do entre-lugar se dá por meio do contato de Muidinga com a linguagem, no momento que encontra os cadernos de Kindzu. A língua, ainda que o pequeno não a conheça e não a domine, é o disparador da inventividade e da possibilidade de encontro com a verdadeira identidade de Muidinga.

Já no romance de 2008, Venenos de Deus, remédios do Diabo, o estranhamento é construído principalmente pela introdução de um léxico muito poético e cheio de neologismos.  Ambientada em Vila Cacimba, um território bastante enigmático e com histórias nebulosas. Nas palavras do personagem principal, Bartolomeu Sozinho, um velho mecânico aposentado, constitui-se uma teia de mentiras e verdades, tecida com memórias e falsidades. O leitor se vê tateando um espaço tão etéreo quanto envolvente, preso pelas artimanhas da oralidade poética de Bartolomeu Sozinho. A sensação de estrangeirismo que afeta o leitor reafirmada na presença do médico português Sidónio Rosa em Vila Cacimba, pois ao introduzir um personagem estrangeiro que tenta decodificar essa linguagem quase mística, Mia Couto introduz um elemento de contraponto e dúvida às histórias narradas.

Por fim, no romance Antes de nascer o mundo o conflito principal entre memória e realidade é mediado pela construção de um “mundo” a parte onde os personagens do romance se escondem totalmente isolados da civilização. Sem conseguir se recuperar ou recompor sua identidade após circunstâncias traumáticas da vida, o patricara Silvestre mantém seus dois filhos e um agregado de confiança em um exílio inventado. É interessante notar como nesses romances, os fatos que desencadeiam a “fuga” dos personagens principais relacionam-se significativamente com o momento histórico no qual se situam, que é o desolamento da sociedade africana pós a guerra civil. Os conflitos oriundos desse violento processo emancipatório refletem-se nas complexas relações que esses personagens estabelecem entre passado e presente, e como elas alteram a sua subjetidade, e as concepções de tempo e espaço.

Logo, o deslocamento/desterritorialização se dá não apenas como temática ou realização formal das narrativas, antes, pode ser apreendido desde o léxico de Mia Couto, permeando todas as esferas do romance até a recepção do leitor, que ao caminhar pelas armadilhas da história e da ficção, se encontra com um mundo que de tão distante chega a parecer mítico, quando na verdade trata-se da história de um país, que como nós, esteve muito tempo sob o jugo da colonização e agora precisa reinventar a sua identidade, ou reencontrá-la nos vestígios da língua, da oralidade e dos costumes. O tom híbrido da linguagem, que mescla português culto e oralidade, prosa e poesia, recuperando palavras ancestrais e transformando a língua na formação de um novo léxico, possibilita que o leitor viaje por vários “lugares” simultaneamente. A descoberta de Mia Couto no Brasil tem sido muito comparada em relação à Guimarães Rosa, e é compreensível se notarmos a semelhança do projeto literário de ambos, na medida em que o encontro com as suas linguagens nos faz sentirmos estrangeiros em língua materna, em territórios populares, em crenças e histórias.

Narrar as cidades: Budapeste e Medianeras: Buenos Aires na era do amor virtual

As cidades empurram cada vez mais os homens para dentro de suas paredes, crescendo esmagadoras, na mesma proporção em que se proliferam as neuroses da vida urbana. O mundo é grande. O quarto é pequeno. Contudo, é possível conhecer o longe sem precisar sequer abrir as janelas ao acordar. Relacionamo-nos com o mundo e com os outros por meio de fios invisíveis que nos conectam. Os livros já não amarelam, o cd não risca, o cinema é a cama e o encontro é um chat. Esses fios que nos separam da materialidade da vida, trazem o futuro ao nosso alcance, modifica nossa noção de tempo e espaço. Por fim, cada dia mais fechados na rede infinita, habitando as cidades virtuais que construímos em horas de navegação, nos esquecemos dos afetos que nos ligam em apertos de mão e abraços sensíveis.

O protagonismo da cidade sobre o homem não é mais um segredo, e as obras de arte estão aí para traduzir em linguagem essa nova forma de estar no mundo do homem pós-moderno. Se no surto de industrialização e urbanização do século XX as cidades aos poucos tomaram o lugar do campo enquanto topos da linguagem artística, a pós-modernidade anuncia a cidade soberana sobre o indivíduo, determinando sua vida em todos os aspectos possíveis, e transformando a sua expressão artística em uma tentativa de ressignificar a subjetividade fragmentada e caótica do sujeito, que se assemelha e confunde com os prédios, ruas e sinais.

Toda essa alteração na experiência urbana requer da criação artística novas formas que sejam capazes de narrar a vivência das cidades em confronto com o indivíduo. Seja por coincidência ou constatação, em um intervalo de quinze dias me deparei com duas obras, por sinal muito bonitas, que desencadearam essas reflexões. O romance Budapeste, publicado por Chico Buarque em 2003, e o filme Medianeras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual (2011), do argentino Gustavo Taretto.  Resguardadas as diferenças temáticas e de linguagem, é possível aproximar essas duas “leituras”, uma vez que elas têm no centro de suas propostas uma questão muito peculiar aos tempos atuais: a difícil tarefa do sujeito em narrar sua experiência solitária e anônima dentro da cidade. Como não costumo falar sobre cinema, vou me arriscar em uma “leitura comparada”, aproximando as questões narrativas, sem me ater muito à trama das obras ou às técnicas.

Quero falar, sobretudo, da sensação de desconhecimento do outro e da impossibilidade de comunicar-se, que faz com que sejamos multidões solitárias se esbarrando pela cidade.Talvez, por isso, ambas as obras sejam apresentadas com narrativas em primeira pessoa. O sujeito que não é visto no meio do todo, que perdeu a sua identidade na banalização da diferença que afeta, principalmente, os grandes centros, encontra na linguagem a única possibilidade de expressar os seus conflitos, de recuperar a sua voz pessoal, de se diferenciar. O enredo, muitas vezes, é menos importante do que o próprio ato narrativo, pois no contato do sujeito com a linguagem o mundo pode ser reconstruído segundo a sua perspectiva.

 No romance Budapeste, o narrador é o personagem José Costa, um ghost writer, alguém que tem no anonimato a maior premissa de sua vida. A metalinguagem está presente o tempo todo no seu discurso, recortado entre tempos e lugares diferentes, através do qual José Costa conduz o leitor do Rio de Janeiro a Budapeste, e vice-versa, as duas cidades pelas quais sua vida e o seu amor se dividem. Esse corte entre as esferas da vida também está posto no texto, ao utilizar recursos como o discurso indireto livre e a não linearidade, indicando a confusa relação de José Costa com o tempo e o espaço. Além disso, a metalinguagem se debruça sobre a constatação da banalização do escritor e da obra literária, da arte como mercadoria, um sintoma próprio da globalização e das mudanças culturais que ela implica.

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Budapeste, Chico Buarque

 Em Budapeste, embora as cidades sirvam também de paisagem para o romance, elas são disparadoras de conflitos existenciais. Esse homem, que tinha por costume conhecer as cidades estrangeiras por onde passava através das linhas e ícones de um mapa, sem que se interesse tampouco a sair do quarto do hotel, e que via a sua esposa mais nas telas da televisão do que na vida real, conhece uma mulher em Budapeste e a partir daí se vê no dilema entre uma cidade colorida e uma cinza, entre duas mulheres diferentes, a esposa e uma estrangeira, está dividido entre o familiar e o estranho, entre o prazer da língua em que escreve e o mistério do húngaro que desconhece.

Utilizando-se de outros recursos narrativos, o filme Medianeras, é construído sobre uma melancólica metáfora que compara os homens aos edifícios da cidade, narrada por duas vozes que se alternam, a de Martin e Mariana, os protagonistas da história. Eles são vizinhos de prédio que sequer se conhecem, e são mostrados sempre entre paredes, ligados ao computador ou a alguma atividade solitária. O filme traça um paralelismo entre as trajetórias de ambos, que embora tão próximas física e subjetivamente, são marcadas pelo desencontro. A forma narrativa combina imagens da cidade, de sua arquitetura, às reflexões de ambos, que no decorrer de algumas cenas falam sobre suas expectativas, solidões e paranoias alimentadas pela vida urbana, constituindo assim a metáfora sobre a qual se baseia o filme. A prosa poética dos narradores transforma a comparação de modo muito sensível.

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Cena do filme, Medianeras

Todas essas vozes, José Costa, Martín, Mariana, tentam responder como podem ao desafio de narrar a existência contemporânea. Os fatos que importam são pequenos e prosaicos, e é da particularidade e intimidade, do universo micro da existência de um indivíduo anônimo, que se busca a compreensão de um fenômeno muito maior que os próprios homens: o da dissolução das identidades e do afastamento das pessoas. Enquanto em Budapeste, José Costa e Kriska, sua amante, são aproximados pela diferença e pelo estranhamento, Martín e Mariana estão ligados pela afinidade com que partilham o medo do convívio social. No mais, são apenas vidas aleatórias que em nada tem algo de especial para contar, mas que rompem a barreira de suas neuroses e transmutam em linguagem o conflito da solidão acompanhada, nas cidades que arrastam os homens para a margem do texto, tal como os empurra para dentro de seus cubículos.