julho, te escrevo

Agora é frio e chove, muito, sem trégua. Estou sentada nesse lugar tão meu, onde se empilham alguns livros, anotações, e também se empilham finais de tardes, objetos de papelaria, poemas. Uma pilha infinita dos poemas que ainda não escrevi e que estão prestes a cair e se espalhar por toda a sala. Hoje, um dia atípico, emprestei um livro que não sei se irá voltar. Também pensei que faria uma lista com todas as minhas ideias desde aquelas mais banais até outras um tanto quanto surreais, e depois iria ao supermercado procurar nas prateleiras por algumas delas. Não fui. A chuva me impele para dentro cada vez mais da casa – e da vida – e às voltas com alguma ansiedade, me sento, escrevo, escrevo, apago.

Evito olhar pra lá da janela. Sei que aqui – perto ou dentro? – tenho o que procuro e nunca encontro. A frase ideal que dará sequência a uma série de outras frases, palavras, vírgulas, pausas. Parece que preciso conversar. Falar com alguém. Alguém que me arranque súbito desse abismo de introspecção e faça saltar à boca aquela palavra. Não deve ser tão difícil assim. Não pode. Esses infinitos livros escritos e editados e lidos e esquecidos foram um dia antes também só ideia. Mas, como é que faz, alguém me responda, como é que a gente rompe a quarta parede entre o nosso livro ideal e aquele que terá forma, cheiro, e que será escrito,por nós, em tardes chuvosas de um julho qualquer?

Ouço uma canção. Algo assim umas quinze vezes seguidas. Já dispus os lápis de cor em ordem cromática degradê,tomei 3 banhos e deitei no azulejo. Eu queria escrever sobre a impossibilidade de escrever quando se tem outras prioridades como limpar a casa, ir ao trabalho, regas as flores. Como se a escrita só pudesse existir no tempo suspenso. Tempo sem antes nem depois. As palavras não podem competir com a realidade.