são paulo dia último ou quando um filme é um abraço

Sábado quente na paulicéia mais doida de todas. Depois de 20 dias navegando pela Paulista, meu coração à deriva entra num cinema. Os cartazes são muitos. E dentre eles um convite que há tempos estava em suspenso: “Viva a Liberdade”, próxima sessão. Coração na mão, escolho a poltrona. Desligo o celular, o relógio, a ansiedade. Moro no interior onde quase não há cinemas. Daí que ainda me surpreendo com a sutileza e nuance dos muitos sentimentos que perpassam essa experiência – tão individual e coletiva – do filme compartilhado por estranhos. Esse cinema marca o início de um fim. São Paulo e eu estamos nos despedindo, por enquanto. Lá fora as pessoas apressadas, o sol, os artistas de rua, a cidade. Dentro um filme, sala escura, emoções caladas e uma surpresa.

Quando numa mesa de boteco, há alguns dias atrás, Marina me falou com o entusiasmo Ah, você tem que assistir filme!, nunca imaginei que seria nessa tarde tão datada que eu me encontraria com esse cartaz e esse convite. Nesse dia aflito, esperando que alguém me dissesse alguma coisa, qualquer coisa que apontasse um caminho, veio da tela grande a poesia que sacudiu as águas interiores e fez brotar um riozinho nos olhos. Brecht. Por magnetismo do destino ou empenho da vontade, a mensagem de Viva a Liberdade foi um abraço terno e um beijo de coragem.

No choro contido e profundamente sentido, coube tudo e tanto que nem se descreve. Esperança no amanhã. Fé no sorriso franco e na palavra clara. Demasiado humanos é o que somos, ou fomos, naquela tarde. Pode um filme mudar uma vida? Eu não sei. Mas hoje, dois meses e meio depois, eu sentimental quando penso em desistir fecho os olhos e entro de novo naquele cinema. Acreditar é preciso. E lutar, ainda mais. Não uma luta do ressentimento e do rancor, onde as palavras desferem golpes de morte aos sonhos dos nossos irmãos.

Há que se viver a luta com amor. (Clichê, talvez.) Não perder a ternura. E não ceder à desilusão. Viva a Liberdade é para nadar a contracorrente do pessimismo que, homeopaticamente, afundou nossas utopias em um oceano de discursos vazios. As palavras pronunciadas sem sentimento não podem mais mover moinhos.  E quando o barco parecer querer virar outra vez,  lembremos: remar. remar. re(a)mar.

em tempo, se tudo mais não der certo: “vamos fazer um filme?”

http://www.youtube.com/watch?v=pcoIKLrSYhQ

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são paulo dia 1 ou eu não sou daqui

segunda-feira de manhã são paulo cinza. gente que já se apressa pra chegar sabe-se lá onde. no contratempo dos paulistanos, vou devagar observando e lendo as placas, apostando que meus olhos e andar vacilante denunciam a falta de intimidade. para o sono um café, para a caminhada um ipod,para a friaca um cachecol. primeiro dia e são paulo é como um cara legal que você conhece por acaso na mesa de um bar. um flerte discreto. tenho vontade de entrar no metrô e descer em qualquer lugar. estou aqui e sozinha. com lenço no pescoço e documento na carteira, caminho por um longo dia entre ruas que para mim são quase celebridades. pés cansados no all star surrado, alguma dificuldade pra respirar,faço uma pausa na livraria cultura. poesia salta aos olhos: leio meia dúzia de haicais de keroac e tiro um cochilo na poltrona. não posso esquecer de encontrar a rua lisboa, é lá meu primeiro destino. do meu quase sono ouço gringos conversando atrás das prateleiras. tenho a estranha mania de querer falar com estranhos ou sorrir para os transeuntes que passam sem ao menos me enxergar.

trilha sonora do dia: