Ralph Giordano: morre escritor sobrevivente do Holocausto judeu

Anteontem, enquanto buscava um pequeno artigo em alemão para traduzir, me deparei com a notícia do falecimento de Ralph Giordano, um importantíssimo escritor alemão, sobrevivente do Holocausto, cuja obra tem um caráter profundamente autobiográfico sobre esse período de sua vida. Curiosamente, enquanto buscava fontes para auxiliar a tradução, nã encontrei praticamente nada sobre Giordano na imprensa brasileira. Fato lamentável, já que Giordano além de escritor, jornalista, também foi responsável por muitos documentários para a TV Alemã, sobe a Segunda Guerra.
Abaixo, minha tradução e o link da notícia original, na revista Spiegel online.

ESCRITOR ALEMÃO RALPH GIORDANO MORRE AOS 91 ANOSralph

Seu romance “Die Bertinis” tornou-o famoso: o escritor e jornalista Ralph Giordano foi um dos mais influentes intelectuais da Alemanha. Ele faleceu em Köln, aos 91 anos.

 

Giordano era considerado uma autoridade moral e tanto sua literatura quanto os seus discursos eram usados a fim de apontar deficiências da história alemã. Desde seu romance “Die Bertinis”, em 1982, Ralph Giordano foi um dos mais representativos intelectuais públicos da Alemanha. Como sua editora Kiepenhaur & Witsch confirmou, Giordano faleceu quarta-feira (10 de dezembro) pela manhã na cidade de Köln. Ele tinha 91 anos.

Giordano nasceu em 1923, na cidade de Hamburgo, seu pai era natural da Sicília e sua mãe era de origem judeu-alemã. Por causa de sua descendência judia, a família Giordano foi massivamente perseguida durante o regime nazista, o que levou Ralph a abandonar o Ginásio em 1940, antes da conclusão. Para evitar que a mãe fosse deportada, a família escondeu-se em um porão em ruínas, abrigados por uma mulher em Hamburgo. Em 4 de maio de 1945 o 8°exército britânico libertou a família, que se encontrava completamente magra e desfalecida.

Apesar dessa experiência, Giordano decidiu, ao final da guerra, que permaneceria na Alemanha. Ele entrou para a KPD (Partido Comunista Alemão) e colaborou para o Jornal comunista como repórter até 1956. Em 1957 Giordano deixou o KPD e quatro anos depois publicou um impiedoso ajuste de contas “O partido está sempre certo”, com relatos sobre seu tempo no partido. Depois desse livro Giordano foi para a TV NDR. Desde então, ele rodou aproximadamente uma centena de documentários engajados, até sua aposentadoria em 1988.

 

CRÍTICA A WALSER, MAS TAMBÉM AO ISLÃ

Enquanto trabalhou como jornalista, Giordano escreveu simultaneamente um romance autobiográfico sobre as experiências de sua família judia durante o regime nazista na Alemanha. Em 1982 publicou seu romance de 800 páginas, “Die Bertinis” e tornou-se um sucesso nacional e internacional.

Nos anos seguintes, novamente Giordano exortou as relações irresponsáveis com a história alemã, no seu muito difundido livro “A segunda culpa ou a carga de ser alemão”, publicado em 1987. No ínicio dos anos 90 na Alemanha, com o aparecimento de muitos cartazes xenófobos, Giordano escreve uma carta pública ao então chanceler Helmut Khol, na qual ele acusa o estado de irresponsável fraqueza contra as violências da extrema direita.

Também na controvérsia em torno do escritor Martin Walser e suas declarações sobre o holocausto e a memória cultural alemã, Giordano ocupou uma inequívoca posição e acusou o colega escritor da revista “FAZ” de deturpação histórica das relíquias do revanchismo alemão. Com “”Erinnerungen eines Davongekommenen” (Memórias de um que sobreviveu) Giordano escreve mais um vez, em 2007, um impressionante depoimento sobre sua história pessoal como sobrevivente do Holocausto.

Por fim, Giordano fez severas críticas à construção de uma grande mesquita em sua cidade adotiva Köln, onde ele morou desde 1972, e para onde voltou sua atenção. “Não a Mesquita, o Islã é um problema”, comentou ele sobre o conflito.

Giordano casou-se duas vezes, sua primeira esposa Helga morreu em 1984, sua segunda esposa Roswitha em 2002. Ele faleceu em consequência de uma fratura que havia sofrido há algumas semanas, devido após uma queda em seu apartamento.

Fonte: http://www.spiegel.de/kultur/literatur/ralph-giordano-ist-tot-a-1007692.html

Tradução: Geandra Parmigiani